Livro infantil acessível: multiformato e leitura em pares
Accessible children's book: multiformat and reading in pairs
Libro infantil accesible: multiformato y lectura en pareja
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.
Associação Brasileira de Educação, Saúde e Assistência Social, Porto Alegre, RS, Brasil.
Universidade Federal Rural do Semiárido, Mossoró, RN, Brasil.
Recebido em 31 de agosto de 2025
Aprovado em 20 de setembro de 2025
Publicado em 22 de dezembro de 2025
RESUMO
A literatura infantil tem capacidade de abrigar a imaginação entre suas páginas, permitindo relacionar ficção e realidade, assim como projetar o gosto pela leitura de modo o mais precoce possível. No entanto, a escassez de recursos de acessibilidade na produção literária priva a muitas crianças o prazer de ler. O artigo objetiva apresentar o processo de desenvolvimento de tecnologias voltadas à produção de livros multiformato ilustrados, tendo em vista o público da faixa etária dos três aos 12 anos de idade, em processo de letramento. O estudo adota a metodologia da “extensão inovadora”, assim, quanto ao desenvolvimento tecnológico e inovação, os livros multiformato apresentaram uma versão com texto em tinta em fonte ampliada, escrita em braile e imagens táteis e outra com o uso de Comunicação Aumentativa e Alternativa. Ambas com audiodescrição e contação de história em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Um mesmo livro ofereceu múltiplos formatos de acessibilidade, havendo seis títulos já produzidos pelo grupo autor.
Palavras-chave: Livro acessível multiformato; Leitura em pares; Literatura infantil.
ABSTRACT
Children's literature has the ability to foster imagination within its pages, allowing connections between fiction and reality, as well as encouraging an interest in reading from an early age. However, the scarcity of accessibility resources in literary production deprives many children the pleasure of reading. This article aims to present the process of developing technologies focused on the production of illustrated multiformat books, targeting children aged three to twelve years who are in the process of literacy acquisition. The study adopts the methodology of "innovative extension"; regarding technological development and innovation, the multiformat books include one version with enlarged printed text, Braille writing, and tactile images, and another version incorporating Augmentative and Alternative Communication. Both versions feature audio description and storytelling in Brazilian Sign Language (Libras). A single book thus offers multiple accessibility formats, and six titles have already been produced by the author group.
Keywords: Accessible multi-format book; Paired reading; Children's literature.
RESUMEN
La literatura infantil tiene la capacidad de albergar la imaginación entre sus páginas, permitiendo establecer relaciones entre la ficción y la realidad, así como fomentar el gusto por la lectura desde una edad temprana. No obstante, la escasez de recursos de accesibilidad en la producción literaria priva a muchos niños el placer de la lectura. El presente artículo tiene como objetivo presentar el proceso de desarrollo de tecnologías orientadas a la producción de libros ilustrados multiformato, dirigidos a niños de entre tres y 12 años, que se encuentran en proceso de literacidad. El estudio se enmarca en la metodología de la "extensión innovadora"; en lo que respecta al desarrollo tecnológico y la innovación, los libros multiformato incluyen una versión con texto impreso en tipografía ampliada, escritura en Braille e imágenes táctiles, y otra versión que incorpora el uso de la Comunicación Aumentativa y Alternativa. Ambas versiones cuentan con audiodescripción y narración de historias en Lengua Brasileña de Señas (Libras). Un mismo libro ofrece múltiples formatos de accesibilidad, y seis títulos ya han sido producidos por el grupo autor.
Palabras clave: Libro accesible multiformato; Lectura en parejas; Literatura infantil.
Introdução
A literatura infantil possui a capacidade singular de mobilizar a imaginação, ampliar o olhar para fora do mundo privado da vida – tal como materialmente vivenciada no cotidiano – para cenários da amplitude, para a inclusão de mundos possíveis e para a experimentação de sensações corporais inusitadas. Por entre as páginas da literatura infantil transitam expressões linguísticas, oralidades, vozes de emoções e vozes conceituais, que nominam experiências e sensações, que permitem permeabilidade com os modos de habitar o mundo, contato com a alteridade e uma relação entre ficção e realidade que retira o leitor da submissão a mundos dados para a fruição entre mundos (de personagens, de animais, de objetos, de paisagens e de potências oníricas), contribuindo à descoberta ou invenção de si, do outro e do mundo.
Além de fomentar o gosto pela leitura, a compreensão sobre as margens alargadas do devir-possível-em-nós torna a leitura um modo de acolher o poder da infância em sua potência de criação e de desmanchamento de fronteiras identitárias, conduzindo pele, olhos e ouvidos às fronteiras da imaginação e da intuição. A escassez de recursos de acessibilidade na produção literária infantil priva muitas crianças do prazer da leitura e da experiência intensiva de seus aportes. A proposta de livros multiformato ilustrados, voltados para o público de três a 12 anos de idade, em processo de letramento, visa preencher essa lacuna, proporcionando uma experiência literária inclusiva e enriquecedora. Umberto Eco ao discutir a literatura, também discute a formação do leitor e o lugar do livro como potência para problematizar o mundo, os valores, os lugares, a educação e a formação de conceitos:
[...] A que serve esse bem imaterial que é a literatura? Bastaria responder, como antes já o fiz, que é um bem que se consome por si mesmo, e, portanto, não deve servir para nada... Aquilo de que pretendo falar, então, é sobre uma série de funções de que se reveste a literatura para a nossa vida individual e nossa vida social. A literatura exercita a língua. Porta, sobretudo, o exercício da língua como patrimônio coletivo (Eco, 2016, p. 7).
Se a literatura porta o exercício da língua como patrimônio coletivo, a escassez de recursos de acessibilidade à produção literária priva muitas crianças do prazer de ler. Já a invenção de livros multiformato, como tecnologia apropriada e inovação orientada à inclusão, alarga esse acesso. A produção de livros multiformato ilustrados levou o grupo proponente do presente artigo do “pensar-com” ao “fazer-com”. O grupo proponente organizou, de modo participativo, oito títulos de livros, desdobrados em vários formatos e que vêm sendo experimentados com leitores desde 2014, seis destes títulos apresentados no artigo e dois inéditos. Assim, a proposta do artigo foi a de apresentar o desenvolvimento de livros multiformato ilustrados, destinados ao público da faixa etária dos três aos 12 anos de idade, em processo de letramento. A apresentação inventaria essa produção e a análise os situa em um contexto de educação, inclusão, acessibilidade à literatura infantil e exercício multiformato da leitura, em que a metodologia em pares representa critério de inclusão e aprendizagem colaborativa. Os livros multiformato ilustrados também foram visitados em outras línguas latinas, como o francês, o italiano e o espanhol, permitindo, à análise, um diálogo internacional.
Trajetória e materialidade dos livros multiformato
A busca por uma sociedade mais justa e igualitária, por meio da qualificação e da ampliação dos processos inclusivos, concretizar-se-á quando a acessibilidade for para todos e atender critérios de igualdade e equidade. No caso das crianças, a necessidade do acesso com equidade ao livro infantil é indiscutível, uma vez que participante do acesso à escolarização, à leitura e ao letramento (Freitas, Cardoso e Werner, 2023). No Brasil, os processos de inclusão escolar têm se feito presentes nas reflexões e nos debates ocorridos no cotidiano das escolas e vêm tomando forma em práticas pedagógicas inovadoras, sistemas de autonomia apoiada e assessoramento especializado (Ceccim, Correa e Silveira, 2022), podendo-se verificar alguma tradução nos marcos legais e no desenvolvimento de tecnologias assistivas.
O movimento pela inclusão escolar constitui a direção de políticas que vêm se consolidando no Brasil por meio de normativas há mais de 20 anos. É possível observar muitas práticas pedagógicas inclusivas direcionadas às diferentes áreas do acesso ao conhecimento, sendo garantidas por tecnologias digitais de informação e comunicação e por dispositivos e estratégias de Tecnologia Assistiva, assim como trabalhos voltados à adequação de diferentes materiais em vista de uma perspectiva inclusiva. No entanto, é escassa a oferta de livros ilustrados em multiformato, em que pese seu valor à educação e ao letramento de crianças entre os três e os 12 anos de idade. Imaginar livros infantis desde seu desenho até a oferta em multiformato, considerar o sucesso de sua acessibilidade e a margem potencial de interação entre pares escolares e de faixa etária é um desafio urgente e necessário. Souza, Pletsch e Souza (2020, p. 219) afirmam a implicação da educação inclusiva, para além do acesso escolar, com “o pleno desenvolvimento dos sujeitos, o respeito à pluralidade cognitiva e a valorização da convivência com a diversidade cultural”. Nessa direção, há particularidades que o multiformato acessível evoca para que todas as crianças experimentem emoções vivas e curiosas.
A busca pela interlocução com os leitores dos livros, isto é, com as crianças, vem permitindo analisar os conhecimentos desencadeados tal como a literatura acessível evoca. Também o estudo sobre os livros, conduzido junto com as crianças, evidencia a pretensão de que estejam voltados a elas como principais interlocutoras a fim de dimensionar o sucesso ou não da proposta e seus modos de uso. A condição do “PesquisarCOM”, enunciada por Márcia Moraes no âmbito dos estudos orientados às pessoas com deficiência (Moraes, 2010), indica o “fazer com o outro a pesquisa”. Já na proposta de construção, uso e avaliação dos livros multiformato a “preposição acoplada” apontou uma forma de ligação singular: o “FazerCOM”, ensejando não apenas a diferença entre pesquisar sobre o outro e pesquisar com o outro, mas também gerar produtos não para o outro, antes com o outro e, nessa medida, um “pesquisar com o outro o fazer”. Se na pesquisa, a ideia é proporcionar “um processo de transformação recíproco” (Moraes e Quadros, 2020, p. 4), no desenvolvimento metodológico e tecnológico, essa ideia é um produto participativo, implicado e sensível.
O desenvolvimento metodológico e tecnológico, no presente caso, tem como amparo institucional a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por meio de um grupo intitulado “MULTI”[1]. A expressão no nome do grupo, acolhe interessados de diversas áreas de conhecimento como pedagogia, design e letras, além de audiodescritores e revisores, entre pessoas videntes e não-videntes. O MULTI conta com uma intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras), que além de ser intérprete é uma contadora de histórias. Entre os vários campos de conhecimento, aquilo que agrega os pesquisadores do grupo, aquilo que os aproxima é o estudo da literatura infantil e a possibilidade de garantir acessibilidade à leitura. O desenvolvimento tecnológico e a pesquisa-ação (por meio da extensão inovadora)[2], envolve a busca por Tecnologias Assistivas que possibilitem desenvolver soluções que permitam o acesso à literatura infantil para todas as crianças. Materiais foram sendo adquiridos, como impressora Braille, impressora 3D, fusora e lupa eletrônica, entre outros, para permitir a idealização e desenvolvimento dos elementos necessários para a produção de livros infantis. A aquisição de equipamentos e insumos contam, desde 2016, com recursos provenientes de diferentes agências de fomento científico e tecnológico, como o Conselho Nacional de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (Capes), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs). O projeto MULTI se insere, também, na implementação do Laboratório Liliana Passerino[3], espaço institucional localizado na Faculdade de Educação da UFRGS.
Cumpre destacar que o desenvolvimento e extensão inovadora proporcionado pelos livros em multiformato ilustrado envolve a área de conhecimentos da Tecnologia Assistiva, cujo propósito é desenvolver soluções que aliem tecnologia e acessibilidade, tendo como mote os processos educativos, por isso, entrecruza pesquisa e desenvolvimento de produto. O intuito é viabilizar a geração de livros acessíveis em multiformato, proporcionados, no futuro, em escala para que possam ser entregues a escolas e a instituições públicas, considerando, de um lado, a diversidade humana, e, de outro, o desenho universal para a aprendizagem (Universal Design for Learning), ou seja, alcançar ampla acessibilidade nos desafios da aprendizagem. A ideia de Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) implica “eliminar as barreiras desnecessárias e manter os desafios necessários” (Sebatián-Heredero, 2020, p. 734). Em uma das experiências precursoras do MULTI, um menino de três anos, ao tocar com a ponta dos dedos a primeira ilustração tátil de um livro, em tom de surpresa e de entusiasmo, exclama: “Ele tem cabelo black”. A alegria da criança se devia ao fato de poder “ver” a imagem com a ponta dos dedos e sentir-se identificado com o personagem principal. O menino curioso estava encantado em poder ver/ler as imagens da história. Ler “nas ilustrações” é o primeiro movimento de leitura das crianças, videntes e não videntes.
Livros infantis com imagens ilustradas táteis: acessibilidade e encantamento
Livros acessíveis são livros que têm imagens. Parece banal, mas a história dos livros ilustrados é muito recente e sua origem não definida, como refere Sophie Van der Linden, em seu livro intitulado “Para ler o livro ilustrado”, de 1973. A pesquisadora colhe pistas desde o século XVI e indica que as primeiras publicações de livros ilustrados, específicas para as crianças aparece no século XIX. O clássico “João Felpudo”, de Heinrich Hoffmann, conta-nos Linden, foi publicado em 1858 e pode ser encontrado ainda hoje nas livrarias da Alemanha, nas versões em alemão e inglês. O livro é marcado pelo “diálogo entre narrativa verbal e os desenhos” (Linden, 2011, p. 24). Conforme Linden, com a publicação de “Macao et Cosmege”, de Edy-Legrand[4], os livros ilustrados passaram a ter as imagens como preponderantes ao texto. Uma trajetória que parece muito curta, mas que provocou grandes alterações na leitura e no acesso à literatura infantil.
Bruno Munari, artista e designer italiano explorou a materialidade para comunicar e, a partir das texturas, das cores e dos cortes do papel, criou um livro onde o tato é um importante sentido para experienciar a leitura, mais que a legibilidade tradicional, chamando-os “livros ilegíveis” (illeggibili libri). Entre 1949 e 1952, o criador lançou os pré-livros (prelibri), que consistiam em uma novidade editorial: em uma série de 12 pequenos livros, cada livro com uma encadernação, material e acabamento diferentes, todos quadrados, com tamanho de 10×10 cm, tais livros podiam ser lidos a partir de qualquer das capas, assim, não possuíam o começo, meio e fim da leitura tradicional, as histórias tampouco eram finalizadas de forma que o leitor ordenava início, contexto e desfecho com seu próprio pensamento e envolvimento (Barcelos, 2023).
Em 1994, Philippe Claudet fundou, na França, a Associação Les Doigts qui Rêvent (“os dedos que sonham”), especializada no acesso das crianças com deficiência visual ao livro e à leitura, em que públicos com necessidades específicas se beneficiassem. Em 30 anos de atividade, a Associação desenvolveu 58.000 álbuns táteis ilustrados. A entidade desenvolveu uma outra forma de pensar livros infantis ilustrados táteis. Os títulos “nascem das oficinas com as crianças, dos feedbacks de experiências com as famílias e profissionais de institutos especializados, bibliotecas e museus, também, mais recentemente, de trabalhos de investigação”. Desde a criação da Associação, trabalham com “entidades de economia solidária, envolvendo serviços e estabelecimentos que atuam na educação inclusiva e inserção produtiva de pessoas com deficiência” (Les Doigts Qui Rêvent, 2023, Portal – tradução nossa)[5].
Para a Federação Nacional dos Institutos Pró-Cegos (Federazione Nazionale delle Istituzioni Pro Ciechi, 2025a, 2025b – traduções nossas), da Itália, um desafio foram as “histórias sob os dedos”, uma experiência de ver, tocar, cheirar e ouvir, que gerou a mostra Árvores. Desde a Federação, se destaca a figura de protagonismo de Pietro Vecchiarelli, no que tange a literatura ilustrada tátil a partir de 2004. O promotor cultural representa a Federação em dois projetos internacionais: Typhlo & Tactus, especificamente dedicado ao apoio e promoção da publicação tátil, e Blind Infant Tactile Illustrated Books (BiTiB), um projeto específico para a produção de livros dedicados à primeira infância. Pela Federação, é criador e editor da série editorial infantil e promotor de iniciativas de divulgação de livros ilustrados táteis em todo o território italiano, em colaboração com instituições e organizações culturais daquele país. Pietro Vecchiarelli é chefe do setor de “Livros Táteis” e foi o primeiro a trazer reflexões e pesquisas sobre livros táteis ilustrados para a Itália, trabalhando ao longo dos anos para difundir essa proposta que tem influência extraordinária e grande intercedência na organização do MULTI. Em 2014, após o presente de Vecchiarelli de dois livros ilustrados táteis, foram lançadas as bases do projeto MULTI e, em 2016, em resposta à conquista de fomento do já citado Edital Universal do CNPq, o projeto se consolidou.
Livros ilustrados para crianças são preciosos e uma vasta e qualificada produção pode ser encontrada nas escolas e bibliotecas, com editoras que oferecem textos com belíssimas ilustrações. Contudo, embora de acesso universal, não são orientados às crianças com deficiências sensoriais em processo de alfabetização. No grupo de pesquisadores, agregado pelo projeto MULTI, esse questionamento se alargou pelo espectro dos processos inclusivos: crianças surdas ou com baixa audição, crianças com deficiência intelectual e crianças estrangeiras em processo de alfabetização na língua portuguesa. Como os livros táteis dialogam com as crianças em alfabetização pela Libras e qual a intercessão possível com a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA)? Como as crianças em diversidade linguística poderiam se beneficiar dessa proposta? Que outros formatos poderiam estar disponíveis de forma a garantir o acesso à leitura e à literatura para toda e qualquer criança? Os livros infantis em multiformato apresentam existência em países como França, Espanha e, principalmente, Itália, mas ainda são exceção no Brasil.
Elena Corniglia (2023, p. 33 – tradução nossa), em “Livros acessíveis, leituras possíveis: recursos práticos para cultivar o direito às histórias”, faz uma cuidadosa análise da produção italiana, nomeando editoras e produções. Segundo a autora, “à diferença de seus pares videntes, as crianças cegas, em verdade, têm muito menos ocasiões de encontrarem, ainda que acidentalmente, a escrita e a representação gráfica”, uma vez que são raros, no universo caseiro e escolar, os textos em Braille e as representações táteis. Nessa medida, defende os livros táteis como essenciais, “principalmente na primeira infância, para permitir que [as crianças] se familiarizem, de forma lúdica e agradável, com essas duas formas de comunicação nas quais seu aprendizado será baseado nos próximos anos”.
A Revista LiBeR - Libri per Bambini e Ragazzi, em 2024, dedicou um número especial para detalhar os mais diversos projetos e editorias italianas sob a chamada “Do design à palavra: acessibilidade e cuidado na criação de livros para bebês e crianças, meninos e meninas” (LiBeR, 2024a e 2024b - traduções nossas):
[...] Os mundos editorial e cultural têm aumentado significativamente sua atenção às questões de inclusão e acessibilidade nos últimos anos. Livros infantis e juvenis acessíveis a pessoas com deficiência aumentaram em número, e a oferta se diversificou: um enorme avanço para uma indústria editorial onde, até recentemente, os títulos disponíveis podiam ser contados nos dedos de uma mão. No entanto, para que o verdadeiro direito à leitura seja concretizado, o foco na acessibilidade não deve ofuscar a importância da qualidade dos recursos oferecidos aos jovens leitores. Portanto, precisamos de belas histórias e livros com forma e conteúdo refinados, livros que possam falar diversas linguagens e satisfazer múltiplas necessidades de leitura (LiBeR, 2024a, Editorial – tradução nossa).
No Brasil, estamos em passos iniciais e as editoras de livros acessíveis têm evidência apenas em livros infantis para crianças cegas ou com baixa visão. Livros que não apresentam imagens táteis para além de pequenas evidências “pontilhadas” em algumas imagens, propostas que normalmente não oferecem acesso com a ponta dos dedos. Neste artigo, trazemos as propostas do projeto MULTI que, de forma experimental (ou experiencial), produz livros em multiformato. Os livros desenvolvidos foram inicialmente objeto de pesquisa, hoje se situam como desenvolvimento e extensão inovadora, ampliando o foco e agregando formatos, na direção de garantir acessibilidade aos livros produzidos e pensados para todas as crianças, em suas diversas formas de acesso.
Livros infantis acessíveis em multiformato: literatura para todos
No Brasil, temos hoje uma direção – desde as políticas de inclusão – que acolhe, como base constitucional, a todas as crianças na escola. Desde essa perspectiva, é necessário sustentar práticas que proponham, além da matrícula, a permanência das crianças na escola, assegurem o encontro com o plural e com o coletivo e promovam o aprendizado colaborativo. Para além do acesso, para que sustente a alegria e o aprender compartilhado, a escola precisa de livros infantis que evoquem o acesso de todas as crianças. Os livros infantis em multiformato vêm dando evidências de acolhimento no acesso à literatura infantil e leitura ilustrada. Os livros em multiformato propiciam acessibilidade à literatura infantil para crianças entre os três e os 12 anos de idade. Um painel das produções foi elaborado como um inventário de produtos com títulos, autores, ano de publicação, número de profissionais da equipe envolvida e os formatos de comunicação inclusiva (Quadro 1), de modo a demonstrar o valor da pesquisa e do desenvolvimento metodológico e tecnológico com os livros do MULTI.
Quadro 1 – Livros multiformato: inventário
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TÍTULOS |
AUTORES |
Ano de Publicação |
Equipe Técnica |
FORMATOS |
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1. Como eu vou |
Cláudia R. de Freitas; Eduardo Cardoso; Mauren L. Tezzari; Marilena Assis |
2018 |
11 Pessoas |
Texto em tinta em fonte ampliada; CAA; Braile; ilustrações táteis; audiodescrição; contação da história em Libras; audiodescrição |
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2. Geometria do corpo: imaginando linhas |
Marilena Assis |
2018 |
16 Pessoas |
Texto em tinta em fonte ampliada; Braile; ilustrações táteis; audiodescrição; contação da história em Libras |
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3. Geometria do corpo: descobrindo formas |
Marilena Assis |
2018 |
16 Pessoas |
Texto em tinta em fonte ampliada; Braile; ilustrações táteis; audiodescrição; contação da história em Libras |
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4. Kubai, o encantado |
Raquel Ramos; Cláudia R. de Freitas; Sheyla Werner; Mauren Tezzari; Isabelle Bertaco |
2021 |
18 Pessoas |
Texto em tinta em fonte ampliada; CAA; Braile; ilustrações táteis; audiodescrição; contação da história em Libras; glossário de palavras indígenas; versões nas línguas portuguesa, inglesa, italiano e francês, audiolivro em Tukano e audiolivro em Guarani |
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5. Jean e a festa entre culturas |
Jeruza Santos Nobre; Sheyla Werner; Cláudia R. de Freitas; Isabelle B. dos Santos; Mauren Tezzari; Rebecca Bernard |
2021 |
19 pessoas |
Texto em tinta em fonte ampliada; CAA; Braile; ilustrações táteis; audiodescrição; contação da história em Libras; animação em CAA e Libras; versões nas línguas portuguesa, crioulo haitiano e francês |
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6. O que tem no cesto? |
Raquel Ramos; Sheyla Werner; Cláudia R. de Freitas; Eduardo Cardoso |
2025 |
8 pessoas |
Texto em tinta em fonte ampliada; CAA; Braile; ilustrações táteis |
Fonte: Elaborado pelos autores, 2025.
Foram inventariados os seis livros, verificando-se que, de cada um deles, participaram de 8 a 19 pessoas na equipe técnica envolvida, implicada com a escrita da história e construção dos diferentes formatos a serem oferecidos. São profissionais, professores, estudantes e convidados que compõem essas equipes. A expansão linguística e cultural é observada nos títulos mais recentes. Obras como “Kubai, o encantado” e “Jean e a festa entre culturas” incluíram versões em português, inglês, italiano, francês e crioulo haitiano, audiolivros em línguas indígenas, como o Tukano e o Guarani. Esses formatos promovem a inclusão e o fomento de identidades culturais plurais. Todas as obras estão disponíveis fisicamente na biblioteca setorial de Educação da UFRGS e digitalmente no Portal Lume - Repositório Digital da UFRGS[6], além do sítio eletrônico do MULTI (Imagem 1).
Imagem 1 – Sítio eletrônico do MULTI
Fonte: Sítio eletrônico do projeto MULTI: https://www.ufrgs.br/multi/
Descrição da imagem: Página de um site com o título “Livros em Multiformato”. No centro da tela aparecem quatro capas de livros infantis acessíveis: “Jean e a Festa entre Culturas”, com uma criança de cabelos crespos em meio a cores vibrantes, “Kubai, o Encantado”, com ilustrações de uma árvore, uma onça, um pássaro e uma figura humana estilizada de cor preta e um grande olho branco, e os dois volumes de “Geometria do Corpo”, ambos com capas brancas e desenhos coloridos de formas e linhas. Embaixo de cada capa há o texto “Acesse aqui para outros formatos”. À direita da tela, há uma barra com informações de contato, links e campo de busca.
Para a apresentação em escolas e ações com crianças na Universidade, foi organizada uma caixa para cada livro com os elementos da história de forma tridimensional. Os elementos tridimensionais garantem o acesso às imagens bidimensionais a serem acessadas entre as páginas dos livros (Imagem 2).
Imagem 2 - Livros com imagens tridimensionais e em CAA
Fonte: Sítio eletrônico do projeto MULTI: https://www.ufrgs.br/multi/
Descrição da imagem: Dois livros acessíveis sobrepostos. Um livro aberto exibe uma página colorida com ilustrações e texto em tinta ampliada. A ilustração mostra uma cobra vermelha em tecido e seu rastro em preto, sobre um fundo verde com padrões geométricos indígenas. A página à esquerda traz o texto em Braile. Sobre a imagem uma cobra artesanal em madeira (o texto fala de uma cobra que rastejava na terra). Atrás desse livro, ele mesmo fechado, visualiza-se a capa com o título “Kubai, o Encantado”, com evidência em Comunicação Aumentativa e Alternativa.
Livros infantis em multiformato podem contar com dois ou mais formatos, podendo envolver diferentes recursos de acessibilidade como: imagens táteis ilustradas, texto em tinta ampliada, narração do texto, descrição das imagens, texto em Leitura Fácil e interpretação em Libras. Alguns livros do MULTI possuem vários recursos, permitindo que diferentes leitores possam experimentar a leitura da mesma obra em companhia, lendo em pares (Imagem 3). Esse método amplia o alcance e as possibilidades das obras. Isso significa uma mudança de chave para educadores e mediadores de leitura, que poderão substituir as chamadas “atividades adaptadas” por “atividades colaborativas”, que possibilitam diversificar o acesso à literatura pela leitura em pares. É necessário, no entanto, planejar uma mediação de leitura que seja, de fato, inclusiva. Para isso, é preciso conhecer livros acessíveis, tocar, escutar e se permitir imaginar. Livros infantis convocam a inserção de diferentes códigos de acesso convidando ao toque, proporcionando diversas formas de acesso a um mesmo título, permitindo que cada leitor escolha a forma que preferir.
Imagem 3 – Livro em Multiformato “Geometria do Corpo: descobrindo formas”
Fonte: Sítio eletrônico do projeto MULTI: https://www.ufrgs.br/multi/
Descrição da imagem: Páginas do livro multiformato acessível “A Geometria do corpo: descobrindo formas. Em pé, no canto superior, aparece parte da capa do livro, com formas coloridas (círculos, triângulos, meia-lua) sobre fundo branco. No centro da imagem, está uma página aberta com um texto com tipografia ampliada e, abaixo, em Braile. Na página ao lado, uma ilustração tátil de três figuras humanas recortadas em alto relevo, enfileiradas, cujas pernas abertas se tocam, formando o padrão de linha zigue-zague descrito no texto. O texto diz Zigue-Zague, três corpos, lado a lado com as pernas abertas e pés encostados foram uma linha zigue-zague. O livro é encadernado com espiral.
Livros ilustrados táteis são livros que muito se aproximam de um desenho universal, apresentando tanto textos, como imagens táteis. O mesmo livro podendo ser acessado tanto pelo tato quanto pela visão. São livros que garantem a presença de dois tipos de escrita: em tinta com caracteres simples e ampliados e em Braille. Apresentam imagens que podem ser igualmente exploradas com os olhos e com a ponta dos dedos, oferecendo, portanto, significativas possibilidades de leitura tanto para crianças videntes como não videntes.
A mais recente publicação (Imagem 4), “O que tem no cesto?”, publicada em Braile e em CAA, que está no processo de desenvolvimento dos demais formatos, vem mobilizando o grupo a qualificar ainda mais as linguagens da acessibilidade, considerando a Leitura Fácil, CAA e recursos bidimensionais nas ilustrações e tridimensionais como possibilidade de fazerem parte da exploração do livro.
Imagem 4 – Livros em Multiformato “O que tem no cesto?”
Fonte: Sítio eletrônico do projeto MULTI: https://www.ufrgs.br/multi/
Descrição da imagem: Páginas abertas do livro em multiformato “O que tem no cesto?”. Ao fundo, está o livro em pé, com a ilustração tátil de uma onça sobre um chão amarelo com pedras pretas. Abaixo está o livro aberto na mesma página. Sobre ela, uma onça de artesanato em madeira. No livro em pé, a página à esquerda traz leitura em Braile e, no livro aberto, a página da esquerda traz pictogramas de Comunicação Aumentativa e Alternativa. O texto em CAA diz: No cesto, tem uma onça. A onça tem quatro patas e corre muito rápido. Vamos correr com a onça?
Quando os livros multiformato chegam à escola, pode-se incentivar a leitura em pares, com alunos videntes e não videntes. Se o DUA “visa ao planejamento do ensino e ao acesso ao conhecimento para todos os estudantes” e “considera as especificidades individuais do aprendizado” (Zerbato e Mendes, 2021, p. 4), os livros assim produzidos podem ser usados em sala de aula para o uso compartilhado. Desdobrar essa possibilidade também em atividades cotidianas em sala de aula proporciona, não uma atividade para uns, mas para que todas as crianças desfrutem juntas (Della Passe, 2024). Segundo Corniglia (2023, p. 40 – tradução nossa), “o livro tátil, melhor do que qualquer outro tipo de livro, celebra e concretiza o fato de que o confronto com uma dificuldade gera riqueza e constrói uma ponte real de encontro entre crianças com habilidades diversas”. São livros inicialmente pensados para crianças não videntes, sobre os quais se observou, entretanto, – nos espaços de pesquisa – que a alegria de ver as imagens com a ponta dos dedos encanta a todas. A possibilidade do toque nas imagens é o que mais agrada, sendo desfrutada por todas as crianças da turma, videntes e não videntes.
Uma segunda versão em papel tem sustentação em pictogramas, ampliando possibilidades de acesso pela criança que está em processo de aquisição da leitura, conhecendo uma nova língua ou apresentando necessidades complexas de comunicação. Os pictogramas apoiam o acesso às histórias e a convocação definida pelas ilustrações. Os pictogramas são um código formado por pequenas imagens que garantem, com a boa escolha do pictograma, a associação com a escrita em tinta. A história em CAA oferece a utilização conjunta e coordenada de um sistema de signos e de símbolos, que podem envolver gestos, sinais e imagens que apoiam e aproximam a linguagem falada. Importa mencionar que, para o desenvolvimento dos livros em CAA, o MULTI usou primeiro o suporte do Centro Aragonês de Comunicação Aumentativa e Alternativa (Arassac), do Departamento de Educação, Cultura e Desporto, do Governo de Aragão, na Espanha (ARASAAC, 2021). A seguir, o MULTI passou a usar o Guia de Escrita por Símbolos da Widgit:
[...] empresa de software [orientada pela] comunicação baseada em símbolos[, atendendo] principalmente pessoas com dificuldades de comunicação de todas as idades, incluindo autistas, pessoas com dificuldades de aprendizagem e dificuldades de fala [com] soluções [...] projetadas para apoiar educadores, terapeutas e cuidadores, aprimorando ambientes de aprendizagem inclusivos e promovendo interações significativas. (Widgit, 2024, portal)
A partir da observação participante junto às crianças leitoras em situação de pesquisa, observou-se que este sistema oferecia mais possibilidades e qualidade à leitura e, assim, à literatura infantil. Um livro em CAA possibilita que crianças em movimentos distintos na aquisição da leitura, possam acompanhá-la com o apoio de imagens (Imagem 5). Esse formato favorece ainda o acesso de crianças de diferentes etnias e línguas familiares ou primeira língua quando têm de aprender uma língua estrangeira no país de acolhimento (Nobre, Freitas e Ceccim, 2024).
Imagem 5 – Livro “Jean, e a festa entre culturas”, uso da CAA
Fonte: Sítio eletrônico do projeto MULTI: https://www.ufrgs.br/multi/
Descrição da imagem: Um livro aberto com duas páginas. À esquerda, a ilustração do personagem “Jean”, uma criança com cabelo crespo olhando para uma grande tigela cheia de banana frita. No alto da página, uma frase em pictogramas de Comunicação Aumentativa e Alternativa, que diz: "Nesta festa havia banana frita. Você já provou? Hummm... É uma delícia!". À direita, o personagem aparece sorrindo e tocando um tambor colorido, com notas musicais ao redor. No alto da página, a frase em CAA que diz: "Nesta festa havia tambor de lata para tocar. Você já tocou? Bate aqui. Bate ali!". As páginas têm fundo em tons suaves de laranja, e o livro é encadernado com espiral.
O auxílio de pictogramas no mesmo livro lido em pares melhora a acessibilidade, a comunicação e a interação. As histórias produzidas pelo MULTI contam, ainda. com uma versão/animação disponível no seu sítio eletrônico, onde é possível desfrutar da contação em formato audiovisual acessível, onde a diversidade linguística está disponível de modo que crianças ouvintes ou surdas usuárias de Libras podem acompanhar a história (Imagem 6). A animação estando gravada com a intérprete em Libras pode ser acompanhada, assim como escutada na voz da intérprete. A animação vai contar, em alguns livros, também com uma segunda versão da animação com uma terceira versão contando com CAA. É possível escolher a versão que melhor agrade uma ou mais crianças, em um ou outro momento: “reprodução da performance tradutória, numa dimensão fílmica, que se apoia nas multimodalidades (imagem do tradutor, ilustrações, cores e textos), para que a mensagem chegue no público” (Freitas, Cardoso e Andrade, 2024 – original em português).
As histórias contadas em Libras fazem parte do entendimento de que esse formato compõe o contexto literário do universo infantil, garantindo o acesso das crianças surdas usuárias de Libras ou que estão conhecendo, explorando e/ou aprendendo a Língua. A história contada em Libras, na perspectiva bilíngue (Libras e português) permite o acesso a recursos visuais, que se expandem com o uso da imagem e pela oralização com vocabulário em português.
Imagem 6 – Tradução em Libras da História “Geometria do Corpo: imaginando linhas”
Fonte: Sítio eletrônico do projeto MULTI: https://www.ufrgs.br/multi/
Descrição da Imagem: Captura da tela de um vídeo com uma história com tradução em Libras. No centro, aparece a capa do livro “Geometria do corpo: imaginando linhas”. O fundo é branco, com o título do livro em letras grandes e coloridas. No topo. O título ocupa três linhas em que as letras “O” estão em linha vertical, a superior em azul, a do meio em alaranjado e a de baixo em verde. No canto inferior esquerdo, se vê a intérprete de Libras com blusa preta, cabelos curtos e ruivos, sinalizando em frente ao fundo branco. No rodapé da tela, aparece a legenda em português que diz: “bem-vindos a versão de tradução em Libras”.
Conclusões
Livros táteis são inteiramente utilizáveis, tanto em texto quanto em figuras, tanto pelo tato quanto pela visão. Caracterizam-se, portanto, pela presença de dois tipos de escrita - impressa em caracteres grandes e em Braille, assim como pela presença de imagens que podem ser igualmente exploradas com os olhos e com os dedos, sendo, ainda mais significativas tanto para crianças videntes como cegas, quando na leitura em pares. Conforme Caldin, Lanners e Polato,
[...] Para as crianças não videntes ou com baixa visão levar para a escola infantil e propor aos colegas os “próprios” livros, muitas vezes lidos e explorados na parte ilustrada como aquelas em Braille, significa compartilhar com eles uma expertise. Será então mais fácil para os colegas intuírem como a diversidade não comporta só dificuldades, mas também soluções, que às vezes se traduzem em “produtos” mais apetecíveis para todos. Também na leitura de álbuns ilustrados tatilmente, a tutoria entre pares representa uma oportunidade de validar e experimentar. (Caldin, Lanners e Polato, 2009, p. 76 – tradução nossa).
Com o desenvolvimento dos livros e observando o movimento entre as crianças diante de livros ilustrados táteis em leitura compartilhada, observou-se que se torna mais fácil para os colegas compreenderem que a diversidade traz, não apenas desafios, inventa soluções inéditas em ato, que qualificam a leitura de uns e de todos. Ao longo do texto foram trazidas as interpretações de pesquisa sobre o que manter, o que tirar, como fazer, como deixar de fazer... Uma pesquisa avaliativa sensível é crucial ao desenvolvimento de produto literário de uso infantil.
Os livros se mostraram mais atraentes para leitores videntes e não videntes. A leitura compartilhada de livros ilustrados táteis entre pares etários ofereceu uma oportunidade a todos. Quanto ao desenvolvimento (metodológico e tecnológico), via extensão inovadora, vem sendo possível desenvolver histórias em multiformato com uma versão com texto em tinta, fonte ampliada e imagens táteis em alto relevo. Uma segunda versão pode ser acessada em Comunicação Aumentativa e Alternativa, em que o pictograma apoia a leitura. A história pode ser acessada por meio de sítio eletrônico com audiodescrição, além de uma animação da história em Libras, com legendas. Um mesmo livro, múltiplos formatos, buscando a acessibilidade e possibilidade de compartilhar a leitura e ampliar o acesso à literatura infantil.
O MULTI conta com seis títulos garantidos em multiformato e outros dois estão em andamento, totalizado oito experimentações nacionais em formato de FazerCOM. Existe ainda a possibilidade de “folhear” os títulos por meio do acesso ao sítio eletrônico do projeto. Pequenas tiragens impressas vêm permitindo a entrega prioritária para escolas e bibliotecas públicas. Com o acompanhamento, vem sendo possível avaliar as possibilidades desencadeadas a partir dos dispositivos de acessibilidade e a tradução destes formatos em oportunidades oferecidas pela leitura colaborativa entre pares etários, com e sem deficiência. O desenvolvimento de tecnologias de leitura é a direção da extensão inovadora e vem permitindo a universalização do acesso aos livros desenvolvidos. O acompanhamento tem sublinhado os efeitos desencadeados pela convocação social e importância educacional ao propor não somente o acesso ao livro, à leitura e ao estudo, mas igualmente à interação proposta pelo aprendizado no encontro entre as crianças, experimentando a alegria ao ler o “mesmo livro” segundo seus diferentes formatos.
Referências
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Notas
[1] O MULTI é um projeto do Núcleo de Estudos em Políticas de Inclusão Escolar (NEPIE), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que tem por objetivo desenvolver “literatura para todos”, por meio de livros acessíveis em multiformato. A equipe é composta por integrantes de diferentes unidades acadêmicas da universidade e parcerias com escolas e profissionais das áreas da educação, linguística e design. Iniciou em 2015 a partir de um curso de extensão sobre “Literatura infantil para a diversidade: livros acessíveis”, teve um projeto de pesquisa aprovado na Chamada Universal 2016 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e, neste momento, conta com fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS). Trata-se de um grupo de pesquisa, desenvolvimento e extensão inovadora, composto por docentes, discentes, pesquisadores consolidados ou em formação, professores e alunos das redes públicas de ensino.
[2] “Desenvolvimento Tecnológico e Extensão Inovadora” é a chamada do CNPq para projetos no mundo da ação (Junges; Ceccim; Possa e Meneghel, 2017). Aqui, reúne desenvolvimento metodológico, além de desenvolvimento tecnológico e extensão inovadora.
[3] Liliana Passerino foi professora da Faculdade de Educação da UFRGS, pesquisadora no campo das tecnologias assistivas. Falecida precocemente, o laboratório de educação especial hoje leva seu nome.
[4] Legrand, Edy. Macao & Cosmage, ou, L'expérience du bonheur. Paris: Éditions de la Nouvelle Revue Française, 1919. Disponível em: https://digitalcommons.risd.edu/specialcollections_books_pochoir/6/. Acesso em: 7 ago. 2025.
[5] A proposta de implicação da economia solidária pela entidade francesa envolve mobilizar recursos comunitários, familiares e associativos para as edições: montagem das histórias, construção de textos, providências de ilustrações, diagramações e formatações, publicação, divulgação e distribuição.
[6] Portal Lume - Repositório Digital da UFRGS: https://lume.ufrgs.br/.