Autonomeação de indicadores de Altas Habilidades/Superdotação acadêmica em universitários[1]

Self-Identification of indicators of Giftedness/ academic Talent in university students

Autonominación de indicadores de Altas Habilidades/Superdotación académica en estudiantes universitarios


Ana Paula de Oliveira https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Campo Grande e Coxim – MS, Brasil.
ana_paula_apo@hotmail.com

Taize de Oliveira https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Universidade Estadual Paulista, São Paulo – SP, Brasil.
oliveira.taizede@gmail.com

Vera Lúcia Messias Fialho Capellini https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Universidade Estadual Paulista, São Paulo – SP, Brasil.
vera.capellini@unesp.br

Olga Maria Piazentin Rolim Rodrigues https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Universidade Estadual Paulista, São Paulo – SP, Brasil.
olgarolim@fc.unesp.br

Recebido em 24 de abril de 2025

Aprovado em 22 de julho de 2026

Publicado em 04 de agosto de 2026

 

RESUMO

Este estudo teve como objetivos: I) identificar universitários de 20 cursos  de graduação, do 1º ao 3º ano, de um campus de uma universidade pública do Estado de São Paulo, que se autonomearam com indicadores de Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) acadêmica e, II) quantificar as áreas indicadas: características gerais de AH/SD acadêmica, habilidades acima da média, comprometimento com tarefa, criatividade e liderança. Em uma amostra de 1.042 universitários que responderam o Questionário para Identificação de Indicadores de Altas Habilidades/Superdotação – adultos - QIIAHSD, 90 se autonomearam com indicadores de AH/SD, segundo os critérios do instrumento, com maior frequência de participantes dos cursos de Artes e Comunicação, sendo o Jornalismo o mais predominante, seguido pelas áreas de Ciências e Licenciaturas (8,89%), com a Pedagogia apresentando maior prevalência e, por fim, a área de Engenharia (6,35%), com a Engenharia Elétrica sendo a mais frequente. Em relação à quantificação das áreas indicadas, 13 alunos (1,24%) se autonomearam em três áreas, 50 alunos (4,79) em quatro áreas e em cinco áreas 27 (2,59), totalizando 90 alunos (8,64%). O estudo é inovador ao abranger a autonomeação relacionada às áreas de graduação que os estudantes estão matriculados. Outro dado é que o número de autonomeação se difere dos dados de matrícula de pessoas com necessidades educativas especiais da instituição. O estudo sugere novas pesquisas que relacionem autonomeação e busque identificar correspondência entre taxa das declarações realizadas na matrícula e comparações entre autonomeação e identificações com instrumentos psicométricos.

Palavras-chave: Altas Habilidades/Superdotação acadêmica; Universitários; Autonomeação.

 

ABSTRACT

This study aimed to: (I) identify undergraduate students enrolled in 20 academic programs, from the first to the third year, at a public university campus in the State of São Paulo, Brazil, who self-nominated with indicators of Academic Giftedness/High Abilities (G/HA); and (II) quantify the self-reported domains: general characteristics of academic G/HA, above-average abilities, task commitment, creativity, and leadership. In a sample of 1,042 undergraduate who answered the Questionnaire for the Identification of High Abilities/Giftedness Indicators – adults (QIIAHSD), 90 self-nominated with indicators of G/HA, according to the instrument's criteria,  with higher frequency in the Arts and Communication programs, particularly Journalism, followed by Science and Teacher Education programs (8.89%), with Pedagogy being the most prevalent, and finally Engineering (6.35%), with Electrical Engineering being the most frequently mentioned. Regarding the quantification per domain based on the applied instrument, of the indicated areas, 13 students (1.24%) self-nominated in three domains, 50 (4.79%) in four domains, and 27 (2.59%) in all five domains, totaling 90 students (8.64%). This study is innovative in addressing self-nomination in relation to the academic fields in which students are enrolled. Additionally, the number of self-nominations differs from the institutional enrollment data concerning students with special educational needs. The study suggests further research to explore the relationship between self-nomination and enrollment declarations, as well as to investigate possible correlations between self-nomination rates and identification through psychometric instruments.

Keywords: Academic Giftedness/Talent; University Students; Self-Identification.

 

RESUMEN

Este estudio tuvo como objetivos: (I) identificar a estudiantes universitarios matriculados en 20 carreras de pregrado, del primer al tercer año, en un campus de una universidad pública del Estado de São Paulo, Brasil, que se autoidentificaron con indicadores de Altas Capacidades/Superdotación (AC/S) académicas; y (II) cuantificar las áreas señaladas: características generales de AC/S académicas, habilidades por encima del promedio, compromiso con la tarea, creatividad y liderazgo. En una muestra de 1.042 estudiantes universitarios que respondieron el Cuestionario para la Identificación de Indicadores de Altas Capacidades/Superdotación – adultos - QIIAHSD, 90 se autoidentificaron con indicadores de AC/S, con mayor frecuencia en las carreras de Artes y Comunicación, siendo Periodismo la más predominante, seguida por las áreas de Ciencias y Formación Docente (8,89%), con Pedagogía como la más prevalente, y finalmente el área de Ingeniería (6,35%), siendo Ingeniería Eléctrica la más frecuente. En relación con la cuantificación de las áreas indicadas, , 13 estudiantes (1,24%) se autoidentificaron en tres áreas, 50 (4,79%) en cuatro áreas, y 27 (2,59%) en las cinco áreas, totalizando 90 estudiantes (8,64%). El estudio es innovador al abordar la autoidentificación en relación con las áreas de formación académica de los estudiantes. Otro dato relevante es que el número de autoidentificaciones difiere de los datos institucionales de matrícula de personas con necesidades educativas especiales. El estudio sugiere nuevas investigaciones que relacionen la autoidentificación con las declaraciones realizadas en el momento de la matrícula y que busquen identificar correspondencias entre las tasas de autoidentificación y los resultados obtenidos a través de instrumentos psicométricos.

Palabras clave: Altas Habilidades/Superdotación académica; Estudiantes universitarios; Autonominación.

 

Introdução

Atualmente não existe, no Brasil, um instrumento ou um protocolo específico de identificação de Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) para o público adulto que tenha evidência de validade psicométrica, segundo as normas vigentes do Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI), do Conselho Federal de Psicologia (CFP), conforme apontado em revisão da literatura (Nakano; Negreiros, 2024).

Em geral, a avaliação das AH/SD envolve múltiplos critérios, à escolha e definição dos avaliadores, como o uso de testes padronizados, nomeação de professores, nomeação de pais, nomeação de colegas, autonomeação e avaliações de trabalho escolar desenvolvido pelo aluno, longitudinalmente (Breviário, 2024; Martins; Chacon, 2023; Cao; Jung; Lee, 2017; Mendonça; Rodrigues; Capellini, 2017). Em adultos, a avaliação tem sido realizada por meio de entrevistas, questionários, nomeação de colegas, nomeação de professores, autonomeação e testes de inteligência (Oliveira; Rodrigues; Capellini, 2020; Basso et al., 2020; Costa, 2016; Peranzoni, 2013; Oliveira, 2016).

Martins, Pedro e Ogeda (2016) fizeram uma revisão de teses e dissertações brasileiras defendidas entre os anos de 2005 e 2014 que abordaram a temática da identificação de AH/SD. Os resultados apontaram que de 91 publicações, 18 eram referentes à identificação. Ao analisar os dados, os autores enfatizaram a carência de instrumentos de avaliação nacional sistematizados que sejam validados, que possam ser utilizados em grande escala e que tragam dados confiáveis. Além disso, sugerem a necessidade de novos protocolos e instrumentos para a identificação.

Ferreira et al. (2023) buscaram investigar quais eram as principais temáticas publicadas a respeito de AH/SD, no período de 2011 a 2020. Os resultados indicaram que dentre 74 artigos analisados, as produções mais frequentes estão relacionadas aos processos de identificação, revisões bibliográficas, programas de atendimento e dupla excepcionalidade. Dentre as categorias e subcategorias, a autonomeação não apareceu nesse estudo, lacuna que o presente estudo abrange.

A partir de levantamentos de pesquisas sobre identificação de AH/SD em pessoas adultas (Oliveira; Rodrigues; Capellini, 2020), notou-se o uso do Questionário para Identificação de Indicadores de Altas Habilidades/Superdotação – adultos - QIIAHSD–adulto (Pérez; Freitas, 2016), baseado na Teoria dos Três Anéis de Renzulli (1986) e na Teoria das Inteligências Múltiplas de Gardner (1994). Gardner (2001) destaca, em sua teoria, a inteligência linguística, lógico-matemática, espacial, corporal cinestésica e intrapessoal. Para Renzulli (1986), habilidade acima da média, comprometimento com a tarefa e criatividade compõem os Três Anéis que descrevem a AH/SD. Segundo o autor (2014), a habilidade acima da média pode ser definida de duas formas: geral e específica. Essas habilidades são aplicáveis a situações de aprendizagem e podem ser medidas por testes de aptidão geral ou de inteligência. Alguns exemplos são: raciocínio verbal e numérico, relações espaciais, memória e fluência verbal.

As habilidades específicas consistem na capacidade de adquirir conhecimento e técnica ou executar uma ou mais atividades de tipo específico e em âmbito restrito. Alguns exemplos são: química, matemática, escultura, composição musical e fotografia. Algumas delas têm relação com outras áreas gerais e, portanto, alguma indicação de potencial nessas áreas pode ser determinada em testes de aptidão geral e inteligência. Porém, muitas não são facilmente medidas por testes, por exemplo, “áreas como belas artes e artes aplicadas, atletismo, liderança, planejamento e habilidades de relações humanas devem ser avaliadas por meio de observação, realizada por profissionais experientes e por outras técnicas de avaliação baseadas em desempenho” (Renzulli, 2014, p. 237). 

A expressão habilidade acima da média é usada para descrever tanto as gerais quanto as específicas. Acima da média refere-se como o nível mais alto do potencial em qualquer área, sendo representativo do grupo de 15% a 20% de pessoas superiores comparadas com seus pares (Renzulli, 2014). Esse dado foi baseado nos programas de identificação em escolas estadunidenses em que o autor participava, onde havia um banco de talentos de aproximadamente 15% de estudantes com habilidades superiores (Renzulli, 1990).

Comprometimento com a tarefa é a “perseverança, persistência, trabalho árduo, prática dedicada, autoconfiança, crença na própria habilidade de desenvolver um trabalho importante e ação aplicada à área de interesse” (Renzulli, 2014, p. 241). Segundo Renzulli e Reis (1997), a criatividade é caracterizada por originalidade e flexibilidade de pensamento, reconhecer ideias, abertura a experiências, ações e produtos novos e diferentes, curiosidade, sensibilidade a detalhes e características estéticas.

A liderança, ainda que não esteja entre os três anéis da definição do Renzulli, segundo Pérez e Freitas (2016), é uma característica comum nas pessoas com AH/SD, principalmente quando a área de destaque é a interpessoal, como “elevada persuasão, capacidade de argumentação e convencimento, auto suficiência, tendência a organizar grupo e capacidade de cooperação” (p. 18). Por isso as autoras incluíram essa área no instrumento, somando com as três do Renzulli (habilidade acima da média, comprometimento com tarefa e criatividade) e características gerais de AH/SD. Essa última  consiste em aspectos como: precocidade, gosto e nível elevado de leitura, interesses variados e diferenciados, tendência a se associar com pessoas mais velhas ou mais novas, capacidade de observação muito diferenciada, assincronismo, preferência por trabalhar ou estudar sozinho, independência, autonomia, senso de humor refinado e gosto e preferência por jogos que exijam estratégia.

Pérez (2008) elaborou o QIIAHSD-adulto para investigar como 10 adultos foram identificados com AH/SD. Deles, cinco foram identificados mediante processos sistemáticos realizados por diferentes profissionais e/ou instituições, sendo que dois fizeram teste de QI (Quociente Intelectual), outros três não informaram os instrumentos e cinco apresentaram indicadores de AH/SD, mas não foram identificados formalmente. A autora destacou a importância do instrumento QIIAHSD para a identificação de indicadores de AH/SD em adultos, inclusive entre universitários, principalmente pela ausência de instrumento específico até o momento.

Pérez (2008) aponta que a identificação do adulto na universidade pode não ser uma tarefa tão difícil e, para isso, sugere alguns encaminhamentos, como 1) utilizar as fontes de informação das escolas onde o aluno estudou para colher dados da infância e adolescência; 2) utilizar instrumentos, como os escores nas provas dos vestibulares, considerando os critérios de seleção adotados por cada curso ou faculdade; 3) a observação atenta dos alunos em sala de aula pelos professores, rendimento acadêmico, avaliando qualitativamente o interesse, o comprometimento com a disciplina e a criatividade; 4) oferecer programas de iniciação científica, para receber alunos que buscam conhecimentos adicionais ou extracurriculares, que muitas vezes não são oferecidos nas disciplinas regulares e, 5) oferecer atividades extracurriculares (corais, grupos de dança, teatro, esportes etc.) que normalmente nucleiam alunos que as frequentam por interesses específicos próprios e, não raramente, por uma habilidade acima da média nessas áreas, às quais se dedicam com comprometimento peculiar, indicadores estes que são utilizados para identificar as AH/SD.

Oliveira, Rodrigues e Capellini (2020) fizeram uma revisão de dissertações e teses brasileiras sobre AH/SD no ensino superior na qual resultou em sete pesquisas realizadas entre 2011 a 2017, indicando um tema relativamente recente. O rastreio ou identificação foi o tema mais frequente, abordado em quatro das pesquisas analisadas, sendo que em duas usaram um instrumento em comum (Costa, 2016; Peranzoni, 2013), o QIIAHSD-adulto (Pérez; Freitas, 2016) e serão descritas a seguir.

Peranzoni (2013) identificou indicadores de AH/SD em alunos do curso de Educação Física em uma Universidade do Rio Grande do Sul por meio de três instrumentos: ficha de informações para delinear o perfil social, um questionário com perguntas abertas sobre a vida acadêmica dos participantes e suas percepções sobre a temática e o QIIAHSD-adultos. Participaram 14 universitários, dos quais sete foram apontados com indicadores de AH/SD do tipo acadêmico e produtivo-criativo, por meio da análise qualitativa do QIIAHSD-adulto e pesquisa documental sobre suas notas (de ingresso no vestibular e nas disciplinas cursadas).  

Costa (2016) identificou indicadores de AH/SD em acadêmicos idosos da Universidade Federal de Santa Maria, localizada no Rio Grande do Sul. Participaram oito acadêmicos com mais de 60 anos. Os instrumentos utilizados foram QIIAHSD-adulto, adaptado para idosos e uma ficha de informações adicionais com intuito de obter informações pessoais, familiares, laborais e sobre as atividades de lazer. Os dados foram analisados de forma individual e qualitativa. Os resultados apontaram para a presença de indicadores, sendo que os mais comuns foram a curiosidade, a criatividade, a liderança, a persistência, o senso de humor elevado, a autonomia e a preferência por desafios. A autora conclui abordando a necessidade de identificação do público universitário idoso.

Basso et al. (2020) avaliaram 76 universitários por meio de testes, inventários e escalas. Dos participantes, 48 responderam o Questionário para Identificação da Expressão da Inteligência (QIEI), de autonomeação. Os demais foram indicação de pares e professores, ou demonstraram interesse em participar da avaliação no Núcleo de Estudos e Práticas em Altas Habilidades/Superdotação (NEPAHS), da Universidade Federal do Paraná. Dos 48 indicados pelo QIEI, 27 (56%) apresentaram características de AH/SD demonstrando sensibilidade para captar indivíduos verdadeiramente positivos. Todavia, precisa ser submetido a outras análises a fim de atestar sua validade e melhorar a precisão.

A literatura indica que aproximadamente 3 a 5% da população apresentam potencial acima da média em diversos contextos sociais sendo que aqueles com AH/SD estão contidos em uma faixa de 1% a 10% de qualquer população, independentemente de etnia, origem ou situação socioeconômica (Brasil, 2006). Essa porcentagem está de acordo com o relatório de Marland (1971), sendo considerado o primeiro documento a ressaltar o percentual de 3% a 5%. No entanto, Borland (2009) considerou tal porcentagem como uma construção social não constatada empiricamente.

Ao fazer a matrícula na universidade o aluno pode se autodeclarar como público-alvo da Educação Especial (deficiência, transtorno global do desenvolvimento ou AH/SD). A presença de pessoas com AH/SD na universidade foi investigada por Lourenço e Battistella (2018) e Silva, Martins e Leite (2018) em universidades públicas localizadas no Estado de São Paulo, a primeira em uma federal e a segunda em uma estadual. As duas pesquisas mapearam alunos público-alvo da educação especial, por meio da autodeclaração na matrícula. Na pesquisa de Lourenço e Battistella (2018), dos 251 estudantes, três indicaram ter AH/SD, um total de 1,19% e na pesquisa de Silva, Martins e Leite (2018), de 597 estudantes, 100 se autodeclararam com AH/SD, totalizando 16,75%.

Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP, 2020), em 2019 havia 6.153.560 matrículas em graduações presenciais no Brasil e, entre elas 1.551 alunos declarados com AH/SD, representando 0,017% dos matriculados. Em graduações presenciais em instituições públicas estaduais no Estado de São Paulo, havia 582.134 matrículas e, dentre estas, 100 foram declaradas de alunos com AH/SD, representando 0,02% nesse contexto.

Os dados apresentados por Lourenço e Battistella (2018), Silva, Martins e Leite (2018) e do INEP (2020) apontam para a falta de identificação da AH/SD. Essa temática em pessoas adultas não é comum nos atuais sistemas educacionais, públicos ou privados (Pereira; Barbosa, 2011). Diante dos poucos estudos brasileiros sobre AH/SD com o público universitário considerou-se a necessidade de ampliar a identificação nesse contexto com amostras maiores. Também, constando-se a inexistência de um protocolo formal de identificação desta população, uma possibilidade é utilizar a autonomeação como ponto de partida para a triagem de pessoas adultas e, especificamente, universitários, podendo contribuir para o avanço na área.

Dentre os objetivos da presente pesquisa se destaca dois: I) Identificar universitários de 20 cursos  de graduação, do 1º ao 3º ano, de um campus de uma universidade pública do Estado de São Paulo, que se autonomearam com indicadores de AH/SD acadêmica e, II) Quantificar a auto identificação de características gerais de AH/SD acadêmica, habilidades acima da média, comprometimento com tarefa, criatividade e liderança.

 

Método

 

O presente projeto apresenta uma proposta de pesquisa descritiva (Carrara, 2014) com universitários de uma universidade pública.

 

Participantes

 

Participaram deste estudo 1.042 universitários de graduação, do 1º ao 3º ano, dos cursos de três faculdades da UNESP, campus de Bauru. Nesta Unidade a UNESP tem 20 cursos de graduação distribuídos em três Faculdades: de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC), de Engenharia de Bauru (FEB) e de Ciências (FC). Participaram da pesquisa os universitários do 1º e 2º ano dos cursos com duração mínima de quatro anos e os universitários do 1º ao 3º ano dos cursos com duração mínima de cinco anos. Foram escolhidos os anos iniciais para que, no momento da devolutiva, eles ainda estivessem cursando a graduação.

Os participantes tinham entre 16 e 52 anos (média = 19,98; DP = 3,15), sendo 546 do sexo masculino e 495 do feminino. Apenas um participante não informou o sexo. Os alunos eram dos 20 cursos das três faculdades, consistindo em 352 (33,8%) da FAAC, 173 (16,6%) da FEB e 517 (49,6%) da FC. As Figuras 1, 2 e 3 detalham os dados por faculdade.

Os participantes da FAAC eram alunos do 1º e 2º ano, do integral e noturno, com idades entre 17 e 36 anos (média = 19,56; DP = 2,15), sendo a maioria (59,37%) do sexo feminino. Observa-se, na Figura 1, os cursos e a quantidade de alunos dessa faculdade.

 

 

 

 

Figura 1 - Fluxograma de distribuição de sexo e idade média por ano e curso da FAAC

 

 

Fonte: Elaborado pelas autoras, elaborado a partir de Python pelo JupyterLab versão 4.

Legenda: 1º - primeiro ano da graduação; 2º - segundo ano da graduação; F – feminino; M - masculino; IMD - idade média; I - integral, N - noturno.

 

Da FEB os participantes eram do 1º e 2º ano, integral, com idade variando entre 17 e 45 anos (média = 18,97; DP = 2,58), sendo a maioria do sexo masculino em todos os cursos,  conforme apresentado na Figura 2.

 

Figura 2 - Fluxograma de distribuição de sexo e idade média por ano e curso da FEB

 

Fonte: Elaborado pelas autoras, elaborado a partir de Python pelo JupyterLab versão 4.

Legenda: 1º - primeiro ano da graduação; 2º - segundo ano da graduação; F – feminino; M - masculino; IMD - idade média; I - integral.

 

Da FC os participantes eram do 1º, 2º e 3º anos de turmas do diurno, noturno e integral, com idade entre 16 e 52 anos (média = 20,60; DP = 3,73). A  maioria era do sexo masculino nos cursos: Educação Física, Química, Matemática, Física, Sistema de Informação e Ciências da Computação e, do sexo feminino nos cursos: Psicologia, Biologia, Pedagogia e Meteorologia. Os dados estão demonstrados na Figura 3.

 

 


Figura 3 - Fluxograma de distribuição de sexo e idade média por ano e curso da FC

 

Fonte: Elaborado pelas autoras, elaborado a partir de Python pelo JupyterLab versão 4.

Legenda: 1º - primeiro ano da graduação; 2º - segundo ano da graduação; 3º - terceiro ano da graduação; F – feminino; M - masculino; IMD - idade média; I - integral, D - diurno; N - noturno.

 

 

Instrumentos

 

Questionário de Informações Sociodemográficas - QIS: elaborado pela primeira autora para coletar informações relacionadas à idade, sexo, curso, ano/semestre que frequentava, ano de entrada no curso, entre outros. Esses dados foram utilizados para a caracterização dos participantes.

 

Questionário para Identificação de Indicadores de Altas Habilidades/Superdotação – adultos - QIIAHSD – adulto: elaborado por Pérez (2008) e adaptado por Pérez e Freitas (2016) que tem por base o referencial teórico de Renzulli (1978; 1986) e Gardner (1994). Foi validado por três doutores da área e realizado um teste piloto com cinco pessoas identificadas com AH/SD com idades entre 22 e 54 anos (Pérez, 2008; 2016). O instrumento foi validado por estudo de comparação de amostragem, embora ainda não apresente validação psicométrica (confiabilidade e precisão estatística e análise de componentes principais, pressupostos para validação de um questionário).

O tempo médio de aplicação é de 20 a 30 minutos. O questionário contém questões fechadas divididas em blocos: I- características gerais de AH/SD = 13; II- habilidades acima da média = 12; III- criatividade = 15; IV- comprometimento com a tarefa = 13; V- liderança = 5 e VI- áreas artísticas e/ou esportivas = 3. O questionário é do tipo Likert, solicitando que o respondente indique uma das cinco alternativas/critério de análise (nunca=1, raramente=2, às vezes=3, frequentemente=4 e sempre=5). As respostas são interpretadas conforme o manual com base na ficha de respostas mais comuns ao QIIAHSD. As autoras consideraram para autonomeação “as respostas mais comuns, que geralmente refletem a presença de indicadores de AH/SD” (Pérez; Freitas, 2016, p.101), que são respostas nas categorias frequentemente e/ou sempre, contudo as respostas comuns podem variar para os grupos de superdotação acadêmica e de produtivo-criativo. Nesta pesquisa consideraram-se as respostas mais comuns para superdotação acadêmica.

 

Procedimento para coleta dos dados

 

A pesquisa envolveu participantes humanos e seguiu os padrões éticos conforme resolução nº 510 de 07/04/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). A pesquisa foi submetida ao comitê de ética e recebeu parecer favorável (CAEE: 76949317.5.0000.5398). Após a autorização da universidade, professores e coordenadores foram convidados para participação, ao ceder um tempo das suas aulas para coleta. Em sala, no início ou final da aula, era explicado o objetivo da pesquisa aos universitários e feito o convite para a participação voluntária. Os interessados assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e responderam aos instrumentos: QIS e o QIIAHSD-adulto. Ainda, foi enviado convite por e-mail, no qual houveram 47 participantes pela modalidade virtual e 995 na amostra presencial, somando 1.042 no total.

 

Procedimento para análise de dados

 

Os dados do QIS foram utilizados para a caracterização da amostra. A autonomeação das áreas indicadas de AH/SD foi analisada e baseada conforme o manual do instrumento o QIIAHSD – adulto.

Para análise dos dados quantitativos das questões fechadas utilizou-se da sugestão das autoras no manual, que é mais comum pessoas com AH/SD assinalar “frequentemente e/ou sempre” nas afirmativas. Sendo assim, foi considerado com indicadores os alunos em que a soma das respostas em frequentemente (4) e/ou sempre (5) foi de no mínimo 75% nas questões de pelo menos três das seguintes áreas: I) habilidades acima da média (mínimo 36 pontos), II) criatividade (mínimo 44 pontos), e III) comprometimento com a tarefa (mínimo 39 pontos). Considerou-se critério de autonomeação essas três áreas combinadas, para manter as áreas da teoria dos Três Anéis de Renzulli.

Os participantes que pontuaram 75% em “frequentemente e/ou sempre” em quatro ou cinco áreas, também foram considerados com indicadores. Sendo as áreas: I) características gerais de AH/SD (mínimo 39 pontos), II) habilidades acima da média (mínimo 36 pontos), III) criatividade (mínimo 44 pontos), IV) comprometimento com a tarefa (mínimo 39 pontos) e V) liderança = 5 (mínimo 15 pontos).

 

Resultados      

A análise de indicadores de AH/SD foi contabilizada considerando o número de áreas que foram identificadas as autonomeações.

Os dados estão na Tabela 1 e Figura 4, que constam a quantidade total dos universitários, das três faculdades, com indicadores de AH/SD distribuídos em grupos de três áreas (habilidades acima da média, criatividade e comprometimento com a tarefa), ou de quatro e/ou cinco das áreas (habilidades acima da média, criatividade, comprometimento com a tarefa, características gerais e liderança) a partir do QIIAHSD-adulto.

Nota-se que se autonomearam com AH/SD 90 (8,64%) universitários de 1.042. Agrupados por faculdade foram 33 de 352 (9,37%) da FAAC, 11 de 173 (6,35%) da FEB e 46 de 517 (8,89%) dos participantes da FC.

 

Tabela 1 – Frequência e porcentagem da quantidade de autonomeações por área, nas três faculdades

Faculdade

n total amostra

3 áreas

4 áreas

5 áreas

Total autonomeados

 

M

F

T

M

F

T

M

F

T

M

F

T

M

F

T

FAAC   N

143

209

352

5

2

7

6

10

16

5

5

10

16

17

33

FAAC   %

41

59

34

15

6

21

18

30

48

15

15

30

18

19

37

FEB   N

136

36

173

1

0

1

5

0

5

4

1

5

10

1

11

FEB  %

79

21

16

9

-

9

45

-

45

36

9

45

11

1

12

FC   N

267

250

517

3

2

5

14

15

29

5

7

12

22

24

46

FC   %

52

48

50

6

4

10

31

32

63

11

15

26

24

27

51

TOTAL N

546

495

1.042

9

4

13

25

25

50

14

13

27

48

42

90

TOTAL %

53

47

100

10

4

14

27

27

55

15,5

14,5

30

4,6

4

8,6

Fonte: Elaborado pelas autoras.

Legenda: M= masculino; F= feminino; T= total.

 

 

Tendo em vista que o número de participantes nas três faculdades variou, apresenta-se os autonomeados considerando as faculdades com base no número total de participantes = 1.042. Sendo assim, foram 46 (4,41%) dos participantes da FC, 33 (3,16%) da FAAC e 11 (1,05%) da FEB, totalizando 90 alunos (8,64%).

Considerando as áreas, se autonomearam em três 13 alunos (1,24%), em quatro áreas 50 alunos (4,79%), e em cinco 27 (2,59%), conforme demonstrado na Figura 4, contemplando 90 alunos.

 

Figura 4 – Distribuição por áreas das autonomeações nas três faculdades

Fonte: Elaborado pelas autoras, elaborado a partir de Python pelo JupyterLab versão 4.

 

A FAAC teve a maior distribuição de casos identificados por autonomeação, dos seis cursos, Jornalismo foi o que teve mais autonomeações (12,7%). Em algumas turmas não teve autonomeação, como nos cursos de Radialismo – 2º ano e Design – 2º anos, entretanto, nesse último curso foram poucos participantes. A distribuição entre os participantes, número de identificados e distribuição de identificações por curso pode ser observado na Figura 5. Dos 33 alunos autonomeados, 18 (54%) eram de cursos noturnos.

 

Figura 5 – Distribuição por áreas das autonomeações em cursos da FAAC

Fonte: Elaborado pelas autoras, elaborado a partir de Python pelo JupyterLab versão 4.

 

 

Já na FEB, o curso com mais autonomeações foi o de Engenharia Elétrica (14,6%), com seis participantes. Na Engenharia Civil e Mecânica dos 2ºs anos não teve autonomeação, entretanto havia apenas dois participantes em cada ano. A distribuição entre os participantes, número de identificados e distribuição de identificações por curso pode ser observado na Figura 6. Dos 11 alunos autonomeados, todos eram de cursos integral.

 

Figura 6 – Distribuição por áreas das autonomeações em cursos da FEB

       

Fonte: Elaborado pelas autoras, elaborado a partir de Python pelo JupyterLab versão 4.

 

Já em relação a autonomeação da FC, 5 universitários se nomearam em três áreas, 29 em quatro e 12 em cinco, totalizando 46 (8,89%). O curso com mais autonomeação foi Pedagogia (20,6%) com 12 participantes. Alguns cursos não tiveram autonomeação, são esses: Psicologia 1º ano noturno; Biologia 1º noturno e 2º integral; Educação Física 1º e 3º integral e 2º e 3º noturno; Química 2º noturno; Físicas, 2º vespertino e noturno; Meteorologia 1º e 2º; e Sistema de Informação 1º noturno. A distribuição entre os participantes, número de identificados e distribuição de identificações por curso pode ser observado na Figura 7. Dos 46 alunos autonomeados, 26 (56%) eram de cursos noturnos.

 

Figura 7 – Distribuição por áreas das autonomeações em cursos da FC

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Elaborado pelas autoras, elaborado a partir de Python pelo JupyterLab versão 4.

 

 

Discussão

Um dos objetivos deste estudo foi identificar universitários com AH/SD acadêmica a partir da autonomeação por meio do QIIAHSD-adulto. A coleta de dados ocorreu em uma universidade pública do Estado de São Paulo, que oferece 20 cursos de graduação em três diferentes grandes áreas. A inclusão e variabilidade de todas as áreas da universidade é justificada uma vez que a presença da AH/SD pode ocorrer em todas elas indiscriminadamente.

A partir da amostra que o estudo atingiu, 8,64% (90) do total dos participantes se autonomearam, inicialmente um dado superior a primeira referência sobre estimativa, que é de 3 a 5% (Marland, 1971). Todavia, são necessárias outras avaliações para a confirmação, podendo esse percentual aproximar-se mais dos dados hipotetizados por Marland (1971).

No estudo de Basso (2020), cerca de metade dos que se autonomearam com AH/SD foram confirmados com avaliações mais específicas. A presente pesquisa foi realizada em uma universidade pública, onde o processo seletivo do vestibular é concorrido e pode selecionar alunos com alto desempenho acadêmico, o que pode chegar a um percentual maior. Segundo Pérez (2008), dependendo dos critérios de seleção adotados por cada curso ou faculdade nos vestibulares, este fator pode selecionar alunos com indicadores de AH/SD.

É importante ressaltar que o instrumento de autonomeação utilizado na presente pesquisa não possui, até o momento, evidências de validade publicadas sob a forma de artigos (Nakano; Negreiros, 2024), ainda que seja o mais utilizado em pesquisas com universitários (Oliveira; Rodrigues; Capellini, 2020). Adicionalmente, não foi objetivo deste estudo confirmar os resultados da autonomeação por meio de instrumentos com validade psicométrica, o que poderia fornecer dados adicionais acerca da capacidade do QIIAHSD-adulto em triar ou identificar adequadamente pessoas com AH/SD.

Nas duas pesquisas que foi utilizado o QIIAHSD-adulto, Costa (2016) identificou indicadores de AH/SD em oito acadêmicos idosos inseridos de uma universidade federal de diferentes cursos, sendo que todos os participantes apresentaram indicadores. Na pesquisa de Peranzoni (2013) foi identificado com indicadores de AH/SD sete universitários do curso de Educação Física de 14 participantes, a estimativa foi de 50%. Todavia não fica claro os critérios de elegibilidade dos participantes que podem ter colaborado para um índice tão alto.

Na pesquisa de Basso et al., (2020) que utilizou outro instrumento de autonomeação - Questionário para Identificação da Expressão da Inteligência (QIEI), 48 responderam, sendo que 27 foram indicados pelo QIEI e apresentaram características de AH/SD, três foram indicados pelo QIEI, mas a identificação não confirmou AH/SD e 15 não foram indicados pelo QIEI, mas apresentaram características de AH/SD. Dessa forma, é possível notar que usar instrumento de autonomeação não garante o rastreio preciso, porém contempla uma das formas de avaliação que não se deve utilizar isoladamente (Cao; Jung; Lee, 2017; Mendonça; Rodrigues; Capellini, 2017). Ainda que instrumentos de autonomeação podem contribuir na identificação de pessoas com AH/SD, são necessários mais estudos para validação do seu uso (Basso et al., 2020; Nakano; Negreiros, 2024).

Estudos têm se debruçado sobre a identificação de estudantes público alvo da Educação Especial no contexto universitário a partir da autodeclaração por ocasião da inscrição no vestibular e, entre eles os superdotados (Lourenço; Battistella, 2018; Silva; Martins; Leite, 2018). Os dados das duas pesquisas diferem muito, de 1,19% a 16,75% de auto declarações. Dados tão díspares sugerem que novas pesquisas na área sejam feitas com dados coletados já nos vestibulares. 

No banco de dados da Unesp-Bauru, no ano de 2018, 22 alunos declararam possuir AH/SD, sendo sete da FAAC, 12 da FC e três da FEB. No ano de 2019 dez declararam possuir AH/SD, destes quatro eram da FAAC, quatro da FC e dois da FEB. Observa-se que o número de autonomeados na presente pesquisa foi superior ao número declarado na matrícula. Porém, não foi possível verificar se foram os mesmos identificados que se declararam na matrícula, devido às questões de sigilo de dados da universidade.

Os resultados indicaram que na FAAC houve 9,37% de autonomeação, sendo mais frequente no curso de Jornalismo. Na FEB houve 6,35% sendo Engenharia Elétrica com mais indicações. Na FC teve 8,89% de autonomeação e o curso de Pedagogia com maior representação. Em relação aos cursos, e ao achado da Pedagogia com mais indicações, a hipótese identificada é que AH/SD é um tema que eles têm contato durante a graduação (Martins; Chacon; Almeida, 2020), sendo uma variável que pode interferir.

Entretanto, em uma pesquisa realizada por Wechsler e Suarez (2016) com 170 universitários de diferentes cursos de licenciatura, incluindo Pedagogia, sobre a presença e/ou ausência de conhecimentos sobre AH/SD e como identificariam esses alunos quando sob sua responsabilidade. As autoras apontaram que os futuros professores possuem muitas dúvidas em relação a AH/SD e que, inclusive, não estão preparados para identificar e atuar com esses estudantes.

Observa-se que as autonomeações foram mais frequentes nos cursos da FAAC (9,37%), seguido pela FC (8,89%) e FEB (6,35%), mesmo que a amostra das faculdades tenha tido número total de participantes diferentes, sendo que a participação foi: FC (49,61%), FAAC (33,78) e FEB (16,60%). A pesquisa de Basso et al., (2020) teve mais participantes do curso de exatas (67,47%), seguido de biológicas (21,62) e humanas (14,47%).

As diferenças podem se dever ao baixo número de cursos e alunos da FEB, quando comparado às outras faculdades da presente pesquisa, além da baixa participação de professores desta área, sendo os cursos com menor frequência de ausência de resposta às solicitações da pesquisadora para permitir a entrada em sala de aula. Tais dados sugerem que mais pesquisas, com número iguais de participantes de cada uma delas, pode ser importante critério de consistência para comparação dos dados.

Levando em consideração a indicação das áreas em que os participantes mais se autonomearam, nota-se que foi mais frequente em quatro áreas, seguida por cinco, e por último, três. Isso demonstra que além das características dos Três Aneis, como, habilidades acima da média, criatividade e comprometimento com a tarefa, a maioria indicou também características gerais de AH/SD ou liderança. A liderança é uma área que é observada em pessoas com AH/SD (Pérez; Freitas, 2016), e está incluída em outros instrumentos que buscam identificar esse público (Nakano; Negreiros, 2024).

Ainda em relação à incidência, segundo o INEP (2020) em 2019, ano que foi realizada a presente pesquisa, havia 6.153.560 matrículas em graduações presenciais no Brasil e 1.551 alunos declarados com AH/SD, representando 0,02% dos alunos matriculados. Em graduações presenciais em instituições públicas estaduais, que é a instituição da presente pesquisa, havia 582.134 matrículas, e dentre estas, 100 foram declaradas com AH/SD, representando 0,017% de AH/SD nesse contexto.

Na instituição investigada neste estudo foram identificados com indicadores de AH/SD por meio de autonomeação 90 universitários de 1042 participantes que preencheram os instrumentos, o que corresponde a 8,64%. Esse dado está de acordo com o esperado segundo documentos legais (Brasil, 2006), que representa de 1% a 10% e aos dados identificados em pesquisas (Renzulli, 2004; Virgolim, 2007; 2014) que relataram que a porcentagem aumenta para até 30% quando avaliado outras áreas além de inteligência, como liderança e criatividade, por exemplo, itens avaliados no instrumento aplicado. A divergência com os dados do INEP é que, provavelmente, se refere à autonomeação dos estudantes por ocasião da matrícula, também tão baixo quanto ao observado nos registros da Unesp, na mesma ocasião, e que pode estar relacionado ao desconhecimento da condição.

Pensando em implicações práticas para as universidades, nota-se que alunos de diversos cursos se autonomearam com indicadores de AH/SD, demonstrando a necessidade das instituições se aproximarem de práticas de mapeamento institucional, para melhor acolhimento das demandas de educação especial dos estudantes, e para que o Núcleos de Acessibilidade possam ter acompanhamentos acadêmicos efetivos para a permanência desses estudantes, visando mobilizá-los para o desenvolvimento acadêmico e profissional, e evitando a evasão ou desinteresse comum em universitários com AH/SD não assistidos, contribuindo para as políticas públicas vigentes. Ainda, ressalta que a necessidade de identificação de universitários com AH/SD, evidenciada pela expressiva taxa de autonomeação (8,64%) nesta pesquisa, encontra forte respaldo na efetivação da  legislação educacional brasileira, a respeito do cadastro nacional previsto na Lei nº 13.234/2015 alterou a LDBEN para instituir a obrigatoriedade da identificação, do cadastramento e do atendimento na educação básica e superior, fomentando a criação de um cadastro nacional (Brasil, 2015). A discrepância entre o baixíssimo número de autodeclarações no momento da matrícula universitária (0,017%) e o índice revelado pelo instrumento de autonomeação demonstra que a ausência de estratégias institucionais proativas de triagem inviabiliza o cumprimento da lei, o que reforça a importância de rastreio pelas instituições. Sem a identificação inicial, as universidades permanecem incapazes de efetivar políticas de inclusão, privando esse alunado do enriquecimento acadêmico e das adaptações educacionais que lhes são garantidos como direito. 

 

Considerações finais

Este estudo objetivou identificar e quantificar universitários autonomeados com AH/SD acadêmica de uma universidade pública de diferentes faculdades e cursos. Os resultados demonstraram que de 1.042 participantes, 90 estudantes se identificaram com indicadores.

Considera-se como  pontos fortes da pesquisa: abranger todas as faculdades (três) do Campus e todos os cursos da Universidade (vinte), contemplando diferentes turnos (diurno, vespertino, noturno e integral) e diferentes anos (1º, 2º e 3º ano), além do número de participantes. A pesquisa nacional que teve o maior número de participantes, segundo Oliveira, Rodrigues e Capellini (2020) sobre identificação de universitários com AH/SD foi 749, realizada em 2016 por Oliveira (2016).

Entre as limitações identificadas pelo estudo, uma foi não ter perguntado aos participantes se eles declararam possuir AH/SD na matrícula da universidade. Essa informação poderia contribuir na análise do questionário utilizado, pois permitiria verificar se o critério de autonomeação do instrumento selecionaria os que se autodeclararam na matrícula ter AH/SD.

Destaca-se que até o presente momento, há poucos instrumentos de autonomeação. O Questionário para Identificação da Expressão da Inteligência (QIEI), utilizado na pesquisa de Basso et al., (2020), embora tenha apresentado 62% de precisão, necessita de outros estudos de evidência. O instrumento utilizado na presente pesquisa, o QIIAHSD-adulto ainda não apresenta evidências de validade (Nakano; Negreiros, 2024), e os critérios de correção não são precisos. Além disso, é indicado para avaliação qualitativa, porém com o número expressivo de participantes foi inviável fazer avaliação individual qualitativa de cada questionário.

Sendo assim, para pesquisas futuras, sugere-se incluir mais medidas para possibilitar a triangulação com outros instrumentos com intuito de fortalecer a confiabilidade dos resultados, principalmente quando o uso de instrumentos de triagem ou autonomeação não possui evidências de validade. E no  processo de avaliação, recomenda-se usar mais instrumentos além do de autonomeação, para confirmar as AH/SD, como nomeação por pares, por professores e testes psicológicos de inteligência e criatividade. Sugere-se, também, a realização de estudos de validação de instrumentos de identificação de AH/SD no ensino superior e/ou para o público adulto.

 

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