Atendimento psicoeducacional a estudantes com dupla excepcionalidade: Vozes dos psicólogos escolares1
Psychoeducational support to twice-exceptional students: Voices of school psychologists
Atenciónpsicoeducativa a estudiantes com doble excepcionalidade: Voces de psicólogos escolares
Universidade de Brasília, Brasília – DF, Brasil.
Recebido em 12 de fevereiro de 2025
Aprovado em 15 de setembro de 2025
Publicado em 22 de setembro de 2025
RESUMO
O objetivo deste estudo foi analisar práticas psicoeducacionais implementadas junto a estudantes com dupla excepcionalidade em um atendimento educacional especializado a superdotados, a partir da perspectiva de psicólogos escolares. Sete profissionais atuantes no atendimento foram entrevistados. Os dados foram analisados por meio de análise temática. Os participantes informaram realizar avaliação dos indicadores de superdotação, apoio socioemocional aos estudantes, bem como orientação e acolhimento às famílias. A avaliação da outra condição é feita por um profissional externo ao atendimento. Como benefícios do atendimento ao estudante com dupla excepcionalidade, foram destacados sentimento de pertencimento a um grupo, interação com colegas com interesses semelhantes e melhor rendimento escolar. Entre os desafios mencionados pelos participantes, salientaram-se as oportunidades limitadas de compartilhamento de experiências profissionais, os estereótipos e as barreiras institucionais. Os resultados chamam atenção para a necessidade de se implementar práticas que considerem os pontos fortes e interesses dos estudantes com dupla excepcionalidade, desconstruindo estereótipos e criando oportunidades de desenvolvimento e aprendizagem.
Palavras-chave: Superdotação; Atendimento educacional especializado; Psicologia escolar.
ABSTRACT
The purpose of this study was to analyze psychoeducational practices implemented for twice-exceptional students in a specialized educational program for gifted students, from the perspective of school psychologists. Seven professionals working in the program were interviewed and the data were analyzed using thematic analysis. The participants reported conducting assessments of giftedness indicators, providing socio-emotional support to students, as well as offering guidance and support to families. The assessment of the other condition is carried out by an external professional. Among the benefits of the program for twice-exceptional students, participants highlighted a sense of belonging to a group, interaction with peers who share similar interests, and improved academic performance. The challenges mentioned by the participants included limited opportunities for sharing professional experiences, stereotypes, and institutional barriers. The findings highlight the need to implement practices that consider the strengths and interests of twice-exceptional students, challenge stereotypes, and create opportunities for development and learning.
Keywords: Giftedness; Specialized educational service; School psychology.
RESUMEN
El objetivo de este estudiofueanalizarlasprácticaspsicoeducativas implementadas conestudiantescon doble excepcionalidadenun programa educativo especializado para superdotados, desde la perspectiva de los psicólogos escolares. Se entrevistó a sieteprofesionales que trabajanenel programa, y losdatosfueronanalizados mediante análisis temático. Los participantes informaron que realizanevaluaciones de los indicadores de superdotación, brindanapoyo socioemocional a losestudiantes y ofrecenorientación y acompañamiento a lasfamilias. La evaluación de laotracondición es realizada por unprofesional externo al programa. Como beneficiosdel programa para losestudiantescon doble excepcionalidad, los participantes destacaronelsentimiento de pertenencia a un grupo, lainteracciónconcompañerosconintereses similares y una mejoraenelrendimiento académico. Entre losdesafíos mencionados, se incluyen oportunidades limitadas para compartir experiencias profesionales, estereotipos y barrerasinstitucionales. Los resultados resaltanlanecesidad de implementar prácticas que considerenlas fortalezas e intereses de estosestudiantes, desmontenestereotipos y creen oportunidades para sudesarrollo y aprendizaje.
Palabras clave: Superdotación; Atención educativa especializada; Psicología escolar.
Introdução
O fenômeno das altas habilidades ou superdotação deve ser considerado um processo em desenvolvimento, que envolve vários domínios, além de fatores cognitivos e não-cognitivos.Ele emerge a partir das inter-relações que se estabelecem entre indivíduo e ambiente, em oposição à noção de uma habilidade pronta ou absoluta, que o indivíduo tem ou não, e que se mantém constante e estável ao longo da vida (Fleith, 2018). O Modelo dos Três Anéis (Renzulli, 2016; Reis; Peters, 2021), em consonância com esses pressupostos, concebe superdotação como fruto da interação dinâmica de três anéis ou dimensões: habilidade acima da média, envolvimento com a tarefa e criatividade. Habilidade acima da médiaenvolve a capacidade de processar informação, integrar experiências que resultem em respostas apropriadas e adaptativas a novas situações, bem comode adquirir conhecimento e técnica. O envolvimento com a tarefacaracteriza-se por alto nível de interesse, entusiasmo e perseverança diante da atividade realizada. Já a criatividade diz respeito à abertura a novas experiências, curiosidade, sensibilidade, pensamento independente e divergente (Renzulli, 1978, 2016; Renzulli; Reis, 2021). Esse modelo, um dos mais utilizados no mundo, inclusive no Brasil (Alencar; Fleith; Carneiro, 2019), e que embasa o presente estudo, não faz distinção entre os termos superdotação, talento e altas habilidades. Portanto, eles são utilizados neste estudo de maneira intercambiável.
Em relação ao perfil de estudantes superdotados, vale destacar que eles são diversos. Betts e Neihart (2004), por exemplo, descrevem dois grandes grupos. O primeiro agrega indivíduos que exibem realização acadêmica compatível com seu alto potencial. São engajados no sistema escolar, têm autoconceito positivo, aprendem com facilidade e frequentemente são encaminhados para programas especiais. O segundo inclui superdotados que encontram obstáculos no transcurso de seu desenvolvimento. Entre eles, encontram-se os com potencial encoberto que não foram identificados, estudantes que abandonam a escola por não terem suas necessidades atendidas, e aqueles que apresentam uma segunda condição de desenvolvimento associada à superdotação, geralmente Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtornos Específicos de Aprendizagem (TEAp). Esses últimos estão associados à dupla condição, denominado na literatura nacional e internacional de dupla excepcionalidade (traduzido dos termos em língua inglesa doubleexceptionality ou twice-excepcionality), termo adotado no presente estudo (Baum; Schader, 2020; Foley-Nicpon; Assouline, 2020; Nakano, 2021; Pfeiffer; Prado, 2021; Zaiaet al., 2021; Reis; Gelbar; Madaus, 2022; Pereira; Rangni, 2023; Medeiros; Pavão; Negrini, 2024).
Os superdotados com TDAHsão descritos como aqueles que apresentam uma assincronia no desenvolvimento expressa pelas habilidades acadêmicas ou intelectuais avançadas e imaturidade socioemocional, além de intensidade emocional como reação aos estímulos ambientais (Lupart; Toy, 2009) e criatividade (Fugate; Zental; Gentry, 2013). O grupode superdotados com Transtorno do Espectro Autistacaracterizam-se pela excelente memória e fluência verbal, fala monótona e pedante sobre seu tema de interesse, dificuldade emcompreender a perspectiva dos outros e em transitar do plano concreto para o abstrato (Guimarães; Alencar, 2013). Estudantes superdotados com TEApapresentam dificuldades relacionadas ao uso da linguagem escrita ou oral e matemática, como dislexia, disgrafia e discalculia. Demonstram potencial criativo e intelectual, mas, geralmente, possuem baixo rendimento escolar (underachievement) e autoimagem negativa.
Embora se observe um interesse crescente pelo fenômeno da dupla excepcionalidade tanto no cenário nacional quanto internacional, a quantidade de pesquisas ainda é limitada. Na revisão de literatura realizada por Pereira e Ragni (2021), evidenciou-se o número reduzido de publicações entre 2014 e 2020, especialmente de estudos empíricos. Também Lee e Olenchack (2019) ressaltam a escassez de investigações sobre a dupla condição. Para Reis, Gelbar e Madaus (2022), a insuficiência de evidências científicas acerca da dupla excepcionalidade pode resultar em sérios desafios para educadores, pais, gestores e responsáveis pela elaboração de políticas públicas, que se beneficiariam da compreensão de quais intervenções educacionais poderiam favorecer o sucesso de tais estudantes na escola.
O objetivo deste estudo foi, portanto, analisar práticas psicoeducacionais implementadas junto a estudantes com dupla excepcionalidade em um atendimento educacional especializado a superdotados, a partir da perspectiva de psicólogos escolares. Considerando a psicologia escolar como campo de atuação profissional, pesquisa e produção de conhecimentos científicos, entende-se que cabe ao psicólogo escolar mediar as relações interpessoais no ambiente escolar e contribuir para otimização dos processos de desenvolvimento humano e aprendizagem de todos os envolvidos no processo educativo, implementandoaçõesancoradasteórica, técnica e metodologicamente(Marinho-Araujo, 2010; Albuquerque; Aquino, 2021; Miranda-Galvão; Fleith, 2024). Neste sentido, esse profissional pode (e deve) atuar no âmbito da educação especial, incluindo o atendimento ao estudante superdotado, um dos público-alvo da educação especial (Brasil, 2008).
Método
Trata-se de um estudo qualitativo, de natureza descritiva e exploratória, cuja finalidade é obter maior aproximação com o fenômeno investigado, tornando-o mais explícito. Nessa abordagem, a realidade é compreendida como subjetiva e considerada a partir da perspectiva do participante.O processo de análise é indutivo, com foco no processo em vez do produto final.Aênfase recai sobre os significados atribuídos pelos participantes às suas vidas e experiências, e tanto os temas quanto os subtemas são construídos a partir dos dados de pesquisa, em vez de serem pré-estabelecidos (Creswell, 2009).
Contexto da pesquisa
Esta pesquisa foi realizada em um atendimento educacional especializado ao estudante com altas habilidades/superdotação de uma secretaria de estado de educação da região Centro-Oeste do Brasil, cuja finalidade é suplementar o currículo das classes regulares de ensino. A equipe é compostapor professores-tutores, professores itinerantes e psicólogos escolares.
Os objetivos do atendimento são: (a) oferecer condições necessárias para o desenvolvimento do potencial intelectual, social e emocional dos estudantes identificados, bem como o enriquecimento do currículo; (b) coordenar as atividades práticas realizadas no atendimento e fornecer capacitação dos profissionais; (c) informar e orientar pais e comunidade escolar acerca desse atendimento; e (d) realizar parcerias com instituições de ensino superior para fins de apoio(Alencar; Fleith; Carneiro, 2019). O foco da sala pode estar na áreaacadêmica ou artística (artes visuais, artes cênicas e artes musicais), de maneira que ela precisa ser equipada com recursos que possibilitem a realização de atividades na área em que se enquadra. As atividades propostas fundamentam-se no Modelo dos Três Anéis e no Modelo Triádico de Enriquecimento (Renzulli, 1978, 2016), sobretudo as de investigação e de desenvolvimento de projetos.
Para ingressar no atendimento, o discente precisa ser indicado: por professores, por psicólogos (da própria escola do estudante ou psicólogos particulares), por familiares, por colegas ou, inclusive, por ele mesmo (autoindicação). Em seguida, deve passar por um processo de avaliação conduzida pelos psicólogos do atendimento, além deum período de observação na sala de recursos, para verificar seapresenta perfil adequado para o programa. Os alunos frequentam o atendimento uma vez por semana, no período matutino ou vespertino, sempre no turno contrário ao que está matriculado no ensino regular. Atualmente, oserviço atende estudantes da educação infantil ao ensino médio, destinando 90% das vagas às escolas públicas e 10% às instituições particulares.
Participantes
Participaram do estudo sete psicólogos, sendo 6 mulheres e 1 homem, comidademédiade42,9anos, variandode28 a 62anos(DP=12,85). Cinco profissionais possuíam pós-graduação lato sensu e dois tinham mestrado. O tempo médio de atuação no atendimento educacional especializado ao estudante com altas habilidades/superdotação era de 9 anos, variandode 1 a 21 anos(DP=6,51). No momento da coleta de dados, esse era o número de psicólogos atuantes no atendimento.
Instrumentos
Utilizou-se um protocolo de entrevista semiestruturado para coleta de dados contendo questões sobre definição de dupla excepcionalidade, perfil dos estudantes, procedimentos de encaminhamento e avaliação, práticaspsicoeducacionais, desafios, avanços e benefícios do atendimento educacional especializado a estudantes com dupla condição, relação da família com o atendimento e modelo teórico adotado. As entrevistas, com duração média de50,7minutos, variando de 29minutos a 1 hora e 34minutos (DP=23,58), foram conduzidas pela autora do estudo e realizadas individualmente com cada participante, sendo seis de forma presencial e uma de maneira virtual, por meio da Plataforma TEAMS. Todas as entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas.
Procedimentos
Inicialmente, solicitou-se autorização da instituição para a realização da pesquisa no atendimento educacional especializado ao estudante com altas habilidades/superdotação. O projeto de pesquisa foi então submetido e aprovado por um Comitê de Ética em Pesquisa. Em seguida foi feito contato telefônico com a coordenadora do atendimento para indicação dos psicólogos escolares atuantes. Os profissionais indicados foram contatados, via WhatsApp ou e-mail, e convidados a participarem do estudo. Todos concordaram, sendo agendados os encontros para realização das entrevistas. Antes do início da coleta de dados, os participantestiveramacesso, paraleitura e assinatura, aoTermode Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e ao Termo de Autorização Para Utilização de Imagem e Som de Voz Para Fins de Pesquisa.
Análise de Dados
Utilizou-se neste estudo a Análise Temática, cujo objetivo é identificar, organizar e relatar padrões de significado (temas) em um conjunto de dados, por meio da descrição e organização detalhadas das informações. Busca-se identificar temas centrais, subtemas e interconexões entre temas e subtemas (Braun; Clarke, 2012). Essa análise envolve seis fases. Na primeira, o pesquisador familiariza-se com os dados, faz uma imersão nos dados, lendo e relendo as transcrições, ouvindo os áudios e tomando notas que considerar relevantes às questões de pesquisa. Nasegunda, códigos são gerados com vistas a identificar e fornecer um rótulo para uma porção dos dados. Na terceira fase, o pesquisador avança dos códigos para os temas. Envolve revisar dados codificados para identificar agrupamentos e similaridades, buscando um padrão coerente e significativo nos dados. A quarta fase caracteriza-se pela revisão de potenciais temas em relação aos dados coletados. Nesse momento, novos temas podem ser acrescidos e outros existentes podem ser excluídos. Na quinta fase, ocorre a nomeação e definição dos temas. A sexta e última fase diz respeito à elaboração do texto.
Trata-se de um processo reflexivo no qual o pesquisador transita entre as fases, podendo retornar às anteriores, sempre que for necessário (Braun; Clarke, 2006, 2012). Para assegurar a confiabilidade dos dados, temas e subtemas foram examinados e reexaminados tanto pela autora do estudo como por três estudantes de pós-graduação com projetos de pesquisa na área de superdotação. Posteriormente, o grupo reuniu-sevirtualmente para discussão dos dados analisados, realizando pequenos ajustes na nomeação e definição dos temas e subtemas. Além disso, a autora manteve contato com os participantes, pelo WhatsApp, para esclarecer eventuais dúvidas durante a análise das transcrições.
Resultados
A análise dos dados obtidos nas entrevistas gerou três temas: (a)Compreensão Acerca da Dupla Excepcionalidade, (b) Atuação do Psicólogo Escolar, (c) Desafios, Avanços e Benefícios do Atendimento. Cada um dos temas é apresentado a seguir. Cada participante é identificado pela letra P e um número.
O tema Compreensão Acerca da Dupla Excepcionalidade diz respeito ao entendimento que os psicólogos escolares, participantes do estudo, têm acerca do fenômeno da dupla excepcionalidade, incluindo definição (subtema 1) e caracterização (subtema 2). Em relação ao subtema 1, eles associam o termo dupla excepcionalidade à existência simultânea de duas condições, diagnósticos ou necessidades, sendo uma delas a da superdotação e, a outra, a de um transtorno do desenvolvimento (transtorno do espectro autista e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), transtorno específico de aprendizagem ou uma deficiência. Seguem relatos dos psicólogos:
Eu definiria [dupla excepcionalidade] como crianças e adolescentes – estudantes – com altas habilidades e mais algum diagnóstico, seja um diagnóstico de deficiência ou dificuldade de aprendizagem, ou… acho que é isso, transtornos. (P4)
A dupla excepcionalidade envolve características de alguma condição, no caso do TEA [Transtorno do Espectro Autista), algum tipo de transtorno ou mesmo daquilo que a gente categorizava como deficiência, associado aos comportamentos de altas habilidades. (P6)
Quanto ao subtema 2, os participantes admitem que não há um perfil único de estudante com dupla excepcionalidade. Descrevem as características desses estudantes focando em dois grupos especificamente, pois são os prevalentes no atendimento educacional especializado ao superdotado: estudantes superdotados com TDAH e com TEA. Os primeiros são caracterizados como agitados, falantes, com dificuldade de se engajarem nas atividades do atendimento educacional especializado ao superdotado e dificuldade de concentração. Ossegundos apresentam isolamento, dificuldade de socialização, hiperfoco e baixa flexibilidade. Emambos os grupos, as habilidades superiores dos estudantes são reconhecidas. Seguem falas dos psicólogos:
A gente tem um estudante ... cujo diagnóstico é de TDAH. Ele é mais agitado e ele conversa muito. Então às vezes a professora precisa mediar um pouco mais, fazer ajustes, colocar junto com estudantes que têm um perfil mais quieto, para evitar que fique só conversa. (P2)
A gente percebe que são crianças [com TEA] mais quietas, ... percebe uma rigidez.... A maioria deles tem a questão da hipersensibilidade auditiva bem acentuada.... A gente percebe que são crianças que tendem a realmente querer trabalhar mais sozinhas. Eles ficam mais isolados.... A gente vê algumas áreas realmente de hiperfoco, vamos colocar assim, de áreas de interesse que, normalmente, giram ali na parte de astronomia. A gente percebe uma dificuldade grande na criatividade, na maioria deles, uma dificuldade na flexibilidade, mas elas até trazem a fluência. (P5)
Eu acho que não tem um perfil único. Como a gente vê que não tem um perfil único das altas habilidades, também não teria um perfil único dos estudantes [com dupla excepcionalidade]. (P4)
O segundotema, Atuaçãodo Psicólogo Escolar, foca nas principais práticas psicoeducacionais implementadas pelos psicólogos escolares no atendimento educacional especializado ao superdotado (subtema 1). Elas se referem à avaliação dos indicadores de superdotação; ao apoio socioemocional aos estudantes, prática mais demandada durante e após a pandemia; e orientação e acolhimento às famílias quando solicitado por elas. A atuação desses profissionais é ancorada teoricamente no Modelo dos Três Anéis (Renzulli, 1978, 2016; Renzulli; Reis, 2021). A seguir são apresentados relatos dos participantes.
A lista é grande. É muito menino para avaliar. Ainda mais com a pandemia, já tinha um atraso antes. E aí com a pandemia, o negócio ficou mais longo ainda. (P3)
A minha função é de avaliação e, quando eu não tenho quem avaliar, eu vou preenchendo com promoção de saúde mental. São duas linhas de frente no meu trabalho. São duas prioridades que têm o mesmo valor, vamos dizer assim. O mesmo peso na minha atuação. Eu estou aqui tanto como avaliação em altas habilidades, que é função do serviço, mas também enquanto promoção de saúde mental, principalmente coletiva. (P4)
Eu diria que é uns 80% do trabalho pesado mesmo, principalmente depois da pandemia, acentuou muito. Então a gente tem muitos casos de ideação suicida, a gente tem muitos casos de automutilação. A gente encontra muitos casos de bullying, de conflitos familiares, e isso a gente tem que fazer um acolhimento, uma orientação, uma intervenção. (P6)
O processo de avaliação superdotação é a principal atribuição dos participantes (subtema 2). Procedimentos de avaliação podem variar de psicólogo para psicólogo em função dos instrumentos disponíveis e das necessidades do estudante avaliado. Constata-se uma diversidade de instrumentos e procedimentos utilizados. Além da aplicação de testes psicológicos (inteligência e criatividade) e inventários de interesses e de estilos de aprendizagem, são realizadas oficinas de criatividade, observação em sala de recursos com vistas a avaliar interação com colegas e envolvimento com as tarefas, entrevistas de anamnese com a família, e entrevistas com o estudante para obtenção de informação acerca dos interesses, vida escolar, aspirações profissionais e planos futuros. Os psicólogos destacaram a importância de se considerar o olhar do professor da sala de recursos, valorizando assim o feedback que dão sobre o estudante. Segue o relato de alguns deles.
A avaliação sempre começa pela leitura da ficha de indicação, para ver a percepção do professor, da pessoa que indicou [ao atendimento educacional especializado ao superdotado]. No caso de dupla excepcionalidade, a leitura dos relatórios médicos. Como eu comentei, em geral, eles já vêm com o laudo. Então eu faço a leitura dos documentos. E aí eu chamo a família para conversar.... E aí depois eu marco o contato com a criança, ou o adolescente, né. Geralmente são dois encontros. E aí eu faço uma entrevista não-estruturada.... Eu uso o desenho para começar a conversa, para quebrar gelo, né. E aí eu faço a aplicação de um teste não-verbal de inteligência e de atividades de criatividade. ... E as observações em sala. Aí eu venho e passo um período em cada sala, vejo como é que é a interação, a motivação, procuro saber quais são os projetos que eles estão desenvolvendo. E aí depois desse momento a gente constrói o relatório, chama a família e dá a devolutiva. (P2)
A gente usa a metodologia de Renzulli. Então a gente investiga a inteligência. E aí esse ano, a direção comprou o WASI [Escala Wechsler Abreviada de Inteligência] para mim, que avalia a inteligência verbal e a não-verbal. Até então, a gente só usava o Raven, o R-2 [Teste Não-Verbal de Inteligência para Criança], que era só a não-verbal. Então agora ficou mais completinho. E aí a gente usa aquela EMA – a Escala de Motivação para Aprender no Ensino Fundamental –, que aí avalia a motivação; e a criatividade, a gente avalia com o TCFI [Teste de Criatividade Figural Infantil] .... Quando tem algo mais, que a gente desconfia de algo mais, aí a gente lança mão de outros instrumentos. (P3)
A gente carece de instrumentos .... Então fica uma avaliação qualitativa mais pesada.... vai para a observação, pra conversa que ele tem, os temas de interesse que ele apresenta nesses momentos que você tem, de conversa. São mais ou menos três encontros que eu faço com o jovem ou com a criança. Um com a família e mais esses três. Que o primeiro eu faço aquele desenho da (mão), que aí eu pego todas as informações. Depois eu faço a aplicação do teste e um questionário. E, por fim, um outro questionário, que vai falar: “minhas habilidades de interesse”, “eu sou bom em…”, “eu gostaria que…”. Eu respeito muito a posição do professor para esse momento de avaliação. (P7)
No que se refere à outra condição (subtema 3), cabe ao psicólogo escolar encaminhar o estudante para avaliação ou receber o laudo psicológico ou médico realizado por um profissional externo ao atendimento. Os psicólogos mencionaram a resistência da família diante da possibilidade de uma condição concomitante. Por outro lado, o foco nas altas habilidades do atendimento ao estudante com dupla excepcionalidade reduz a ênfase nas dificuldades oriundas da outra condição. A seguir, são apresentados relatos de alguns participantes.
Eu falei para ele [pai]: “olha, o seu filho tem muita característica de TEA. Vocês já fizeram alguma avaliação nesse sentido?” [E o pai:] “Não, porque não sei o quê. O meu filho não é. Porque é o jeito dele…”. Eu pedi uma avaliação. Eu pedi uma ajuda externa para alguém que saiba fazer uma avaliação e dar o diagnóstico. Mas eu não afirmei. Eu falei que eu percebi muitas características. E quando a gente percebe, a gente alerta a família. Para que isso, lá no futuro, não dê problema para esse aluno. (P1)
Eu consigo fazer uma avaliação e emitir um relatório sobre altas habilidades, porque eu tenho suporte da teoria do Renzulli. Entende? E experiências, portfólio e estudo de caso com o professor. Agora, um laudo de autismo eu não fecharia, porque eu acho que precisaria de certos testes ou instrumentos que deveriam ser aplicados. (P4)
Inicialmente tem uma resistência. É difícil, assim. E aí, em equipe, a gente debate que é um luto cogitar que o seu filho tem um transtorno ou uma deficiência vem como um luto para os pais daquele filho idealizado.... Muitos medos. Medo da sociedade não ser acolhedora, medo das dificuldades e das exclusões que os transtornos podem gerar em termos culturais. E aí vem uma resistência de: “não, não é bem isso”, “a gente está pensando em outras coisas”. Uma resistência de falar que fechou o diagnóstico. “Não, está em investigação. (P4)
Nessa questão da dupla excepcionalidade, que a gente conversou no começo, como se ser altas habilidades fosse um plus. “Não, ele tá salvo. Ele tem altas habilidades”, né. Então a gente tem percebido essa dificuldade nos encaminhamentos, para que eles não tenham essa ideia de que, “gente, altas habilidades, ele é altas habilidades! Tá tudo bem! Ele tá salvo! Ele tá salvo!”. (P5)
O terceiro tema, Desafios, Avanços e Benefícios do Atendimento a Estudantes com Dupla Excepcionalidade, mapeia tanto os desafios enfrentados no atendimento ao estudante com dupla excepcionalidade quanto os avanços e benefícios atribuídos ao atendimento educacional especializado ao superdotado. Entre os desafios (subtema 1), salientam-se os que dizem respeito ao (a) oportunidades limitadas de compartilhamento entre profissionais, tais como poucas trocas entre psicólogos e professores do atendimento, contato reduzido dos psicólogos com os professores regentes dos estudantes do atendimento e diversidade de perfis dos professores do atendimento; (b) estereótipos acerca do estudante com dupla excepcionalidade, incluindo crenças de que ele não pode apresentar altas habilidades, pois o foco seria nas limitações, e desvalorização da carreira de psicólogo por parte da instituição sob a ideia de que trabalhar com estudantes superdotados é uma tarefa fácil; e (c) barreirasinstitucionais, como insuficiência de recursos materiais para realização da avaliação psicológica, número elevado de avaliações a serem realizadas pelo profissional e poucas oportunidades de formação profissional.Seguem alguns relatos dos participantes:
A gente não tem todos os testes. Então a folha de respostas, por exemplo, agora eu estou sem folha de resposta do TIG e do TNVRI. Então eu vou ter que comprar. (P1)
Primeiro tem o desafio da equipe, de não estarmos juntos, da diversidade dos professores. Então eu estou sempre tendo que adaptar a forma de lidar com um ou com outro. Os instrumentos, que eu gostaria de ter acesso a mais instrumentos. (P2)
O que acontece muito, às vezes é um questionamento da escola de origem. “Como assim, esse menino [risos] tem transtorno e é superdotado?”. Porque existem ainda muitos mitos. (P2)
“Então esses que você [psicóloga] tem, as crianças e adolescentes com TEA, aí nas altas habilidades, eles estão muito bem. Eles estão nas altas habilidades! Então eles não precisam. Você [psicóloga] não precisa de ajuda, né”? (P4)
Quando eu entrei nas altas habilidades, eu escutei muito isso dos meus colegas, de virar e falar assim: “aqui é altas habilidades. A gente não tem que olhar”. E eu falava assim: “e se o menino tem dislexia, como é que eu não vou?”. Se a escola é tão padronizada para a escrita e leitura, porque quando você leva o diagnóstico de altas habilidades para o grupo docente, eles às vezes duvidam se não for dentro do padrão que se espera. Então a gente ainda é muito desacreditado. (P7)
No que se refere aos avanços ou pontos positivos do atendimento ao estudante com dupla excepcionalidade (subtema 2) , foram ressaltados a importância da parceria produtiva com a gestão da escola em que está localizado o atendimento, a participação das famílias nas atividades do atendimento, a dedicação e comprometimento dos professores do atendimento, e as ações conjuntas de psicólogos-professores na desconstrução das ideias estereotipadas acerca do estudante superdotado e do que possui dupla excepcionalidade, inclusive dando maior visibilidade às potencialidades do estudante com dupla condição e ressaltando que esse diagnóstico não é um rótulo, tampouco é limitador. A seguir são apresentados relatos dos participantes.
Quando eu entrei [no atendimento], eu sentia muito uma expectativa na equipe, de que fossem… até usavam esse termo: “ah, eu quero um gênio aqui. Alguém que produza muito”. Ainda tem uma professora aqui [risos] que gosta de ganhar prêmios. E aí eu fui tentando apontar outros caminhos. Que a gente está mais aqui para desenvolver potenciais do que para identificar esse gênio que eles estão esperando. Então eu acho que tem tido esse avanço. (P2)
Os professores são muito atentos, muito dedicados, então eu não consigo ver avanço, porque para mim eles já têm um acolhimento para esses meninos, né? (P3)
O diretor e a equipe de gestão da escola, de direção, de supervisores, eles são muito parceiros. (P4)
Eu acho que esses estudantes estão sendo captados, estão sendo vistos, estão sendo identificados. E o setor público, o ensino público tem realmente esse diferencial, de atender a essa população com uma maior qualidade. (P6)
É uma abertura sutil, mas já se fala mais na possibilidade de um menino com altas habilidades e com transtorno de aprendizagem, com uma deficiência, com uma comorbidade, dupla excepcionalidade. (P7)
Benefícios do atendimento para o estudante com dupla excepcionalidade (subtema 3) foram também identificados pelos psicólogos, apoiados, inclusive, pelo feedback positivo dos pais. São eles: maior participação nas atividades tanto do atendimento educacional especializadoaosuperdotadoquantodasaladeaulacomum, sentimentode pertencimento, foco, interação com colegas com mesmosinteresses e melhorrendimentoescolar. Contudo, os profissionais destacaram a importância desses estudantes também receberem atendimento especializado à outra condição (TDAH, TEA, deficiência). Segue o relato de alguns deles.
Eu ouço muito isso dos pais. Eles costumam dizer: “nossa, agora que ele está vindo para o atendimento, está muito melhor. Está mais concentrado. Ele se sente pertencente. Tem um espaço que tem meninos que são parecidos com eles”, né? Isso no geral, mas especificamente os de dupla condição. “Ele está mais focado”, “ele tem uma atividade em que ele se distrai, em que ele não fica tão tenso, tão preocupado em casa”. Então eu acho que é unanimidade, assim. Todos os pais comentam. Os meninos também demonstram gostar muito. (P2)
É um espaço em que eles não são cobrados, em que eles produzem livremente, em que eles interagem com pessoas que também têm interesses específicos. Eu acho que essa coisa da identificação é muito boa para a autoestima.... Os pais falam: “nossa, eles ficam falando, ‘que dia que é o atendimento?’, ‘que não podem perder’”. (P3)
Discussão
Os resultados revelam que os participantes compreendem o termo dupla excepcionalidade, estando a definição que apresentam em sintonia com o que a literatura pontua em relação ao fenômeno: a existência concomitante de duas condições, sendo uma delas a superdotação e a outra, TDAH, TEA, TEAp ou deficiência (Reis; Baum; Burke, 2014; Reis; Gelbar; Madaus, 2022). Quanto ao perfil do estudante com dupla excepcionalidade atendido, observa-se que a maior parte é composta por superdotados com TDAH ou TEA. Ambas as condições são,em geral, associadas a problemas comportamentais em sala de aula e dificuldades acadêmicas e sociais, o que frequentemente leva educadores, psicólogos e familiares a suspeitarem de sua presença em determinados estudantes (Kamalet al., 2021; Abrahão; Elias, 2022). Por outro lado, discute-se o excesso de diagnósticos envolvendo esses dois quadros (St-Onge, 2015; Fombonne, 2023).
Cabe destacar que algumas características comumente associadas ao TDAH ou TEA, como alto nível de energia, preferências por brincadeiras individuais e supersensibilidade, também podem ser identificadas na superdotação, tornando o processo de identificação do estudante com dupla excepcionalidade mais complexo e desafiador (Fleith; Tentes, 2019). Além disso, levanta-se a hipótese de que dependendo da condição identificada primeiramente, a outra pode ser mascarada, impedindo que o indivíduo receba atendimento adequado às suas necessidades (Kircher-Morris, 2022). Neste sentido, é possível que muitos estudantes diagnosticados inicialmente com TDAH ou TEA não tenham oportunidade de participarde programas voltados para superdotados,uma vez que suas habilidades permaneceminvisíveis no contexto escolar. Um dos desafios identificados pelos psicólogos entrevistados refere-se, inclusive,à crença de professores da sala de aula comum de que não seria possível ao estudante com TDAH, TEA ou TEAp apresentarem, simultaneamente, altas habilidades,por considerarem tais condições incompatíveis. Outro desafio apontado no estudodiz respeito ao contato limitado entre psicólogos e esses professores, o que dificulta o esclarecimentoacerca do fenômeno da dupla excepcionalidade.
Chama atenção o fato de os psicólogos, participantes do estudo, serem responsáveis pela avaliação da superdotação, mas não da outra condição. O número elevado de avaliações a serem conduzidas por eles e as poucas oportunidades de formação profissional continuada e de compartilhamento de experiências entre profissionais do atendimento, desafios mencionados pelos entrevistados, podem ajudar a explicar essa situação. A avaliação concomitante das duas condições deve ser considerada no processo de identificação. Isso porque o perfil do estudante com dupla excepcionalidade não deve se resumir ao somatório do perfil de superdotação e da outra condição, mas entendido “como combinações complexas de dualidades” (Reis; Baum; Burke, 2014, p. 227), formando um terceiro perfil, específico em suas características e necessidades.
Em estudo comparativo envolvendo grupos de superdotados, de superdotados com TDAH e de estudantes com TDAH, observou-se que dois primeiros apresentaram escores superiores em teste de inteligência(Ourofino; Fleith, 2005). O grupo de superdotado expressou uma percepção mais positiva de si mesmo em comparação aos demais. Não foram encontradas diferenças significativas entre os três grupos em relação à criatividade. Os resultados de outro estudorevelaram que estudante com TDAH apresenta limitações mais intensas e persistentes do que o superdotado com TDAH no que diz respeito ao desempenho acadêmico, às funções executivas e às questões socioemocionais (Coutinho-Souto, 2023). Jáos achados obtidos por Zaiaet al. (2021) não indicaram diferenças significativas entre estudantes com dupla excepcionalidade e estudantes superdotados quanto à inteligência, criatividade e características socioemocionais. As autoras alertam, contudo, que os resultados devem ser analisados com cautela tendo em vista a discrepância entre o tamanho do grupo de participantes com dupla excepcionalidade (n=5) e de superdotados (n=80). Ademais, não houve a inclusão de um grupo de estudantes com TDAH para comparação. Os resultados da pesquisa de Gomez et al. (2020) indicaram que os superdotados (com e sem TDAH) tendem a ser menos desatentos do que os indivíduos com TDAH. Observaram-se, ainda, diferenças entre os superdotados com TDAH e os superdotados (sem TDAH) quanto a comportamentos hiperativos/impulsivos específicos (por exemplo, modulação da atividade motora e verbal e reflexão sobre questões).
A avaliação da dupla excepcionalidade é um processo complexo que deve considerar a investigação simultânea dos pontos fortes e limitações do indivíduo, amparada no conhecimento teórico e metodológico que os profissionais possuem acerca do desenvolvimento humano e da superdotação (Maddocks, 2018; Fleith; Tentes, 2019). Nakano, Negreiros e Fusaro (2025), ao investigarem as práticas de identificação de estudantes superdotados por profissionais da área, amostra composta majoritariamente por psicólogos e pedagogos, identificaram desafios na avaliação de casos de dupla excepcionalidade e realização do diagnóstico diferencial.
Em termos da atuação dos psicólogos participantes do presente estudo, além da avaliação da superdotação, foram mencionadas a preocupação em oferecer apoio socioemocional aos estudantes do atendimento, bem como o acolhimento e a orientação às famílias. A pandemia, em especial, contribuiu para a desestabilização emocional de estudantes, sendo necessária a intervenção do psicólogo escolar. Segundo Marinho-Araujoet al. (2022, p. 9), “com a crise sanitária mundial, determinados fenômenos de exclusão, vulnerabilidades e precariedades nos espaços educativos foram revividos ou agudizados”. Isso potencializou ações de acolhimento, orientação e escuta à comunidade escolar por parte do psicólogo escolar (Camargo; Carneiro, 2020).
Em relação ao atendimento às famílias dos estudantes atendidos, salienta-se a importância da parceria produtiva entre escola e família para o desenvolvimento de talentos (Papadopoulos, 2021; Fleith; Vilarinho-Pereira; Prado, 2024). Segundo os psicólogos participantes da pesquisa, esse atendimento ocorre conforme demanda das famílias. Ou seja, ele não é intencionalmente planejado e implementado. Contudo, é importante lembrar que os pais podem se sentir confusos e desinformados acerca de como ajudar seus filhos com dupla excepcionalidade. Eles também podem apresentar resistência diante da possibilidade de uma condição concomitante à superdotação, conforme relatado pelos entrevistados, já que pode parecer paradoxal o filho apresentar habilidades superiores e, ao mesmo tempo, um transtorno, deficiência ou dificuldade. Portanto, esses pais precisam ser orientados a como apoiar seus filhos tanto na escola quanto na família, bem como aprender a defender os direitos dessas crianças e adolescentes (Reis; Renzulli, 2021).
A maior parte das práticas psicológicas relatadas pelos participantes recai sobre a avaliação da superdotação. Isso suscita a indagação de que outras atribuições poderiam ser desempenhadas pelo psicólogo escolar que atua em um atendimento educacional especializado ao superdotado. De que outras maneiras esse profissional poderia contribuir para o desenvolvimento de talentos no contexto escolar? Para Fleith (2009), o psicólogo escolar pode colaborar na elaboração e implementação de estratégias e intervenções educacionais para atender esse grupo de estudantes, informar e orientar a equipe escolar acerca das características, necessidades e práticas psicoeducacionaisadequadas a esse público discente, contribuir para a orientação de carreira dos estudantes atendidos e coordenar grupos de pais de estudantes superdotados a fim de criar espaços de compartilhamentode dificuldades e conquistas na educação de seus filhos.
Especificamente em relação às práticas de avaliação da superdotação, observa-se a utilização de uma diversidade de instrumentos e procedimentos empregados entre os psicólogos, alémda valorização do feedback do professor quanto ao desempenho dos estudantes atendidos. Entretanto, não parece existir um protocolo de avaliação a ser seguido pelos profissionais do atendimento. As decisões são tomadasa partir das características e necessidades de cada estudante, bem comodos recursos materiais disponíveis, considerados escassos pelos entrevistados. Por um lado, destaca-se como aspecto positivo a multiplicidade de critérios no processo de identificação e avaliação do superdotado, incluindo o estudante com dupla excepcionalidade, conforme recomendado pela literatura da área (Fleith; Tentes, 2019; Foley-Nicpon; Assouline, 2020). Por outro, a ausência de um eixo orientador e sistematizador dos dados a serem coletados na avaliação pode gerar vieses quanto a que estudantes serão incluídos ou não no atendimento. Ressalta-se, entretanto, que a adoção de um referencial teórico (Renzulli, 1978, 2016; Renzulli; Reis, 2021) contribui para nortear tantoas práticas de avaliação quanto as práticas psicoeducacionais, pois é a concepção de superdotação adotada que direciona a escolha dos procedimentos a serem implementados.
Outro ponto que merece destaque é o fato de a avaliação realizada pelos psicólogos do atendimento focar nas altas habilidades do estudante, o que reduz a ênfase nas dificuldades oriundas da outra condição. Para Reis e Renzulli (2021), é equivocada a suposição tradicional de que os déficits devem ser remediados antes de se investir no potencial superior dos estudantes com dupla excepcionalidade. Tal prática pode gerar sentimentos de inadequação e baixa autoestima, além de não oferecer condições de aprendizagem compatíveis com as necessidades dos estudantes. Nesse sentido, identificar os pontos fortes, talentos e interesses do estudante com dupla excepcionalidade configura-se como um caminho promissor paraseu desenvolvimento e educação (Ritchotte; Zaghlawan, 2019; Foley-Nicpon; Assouline, 2020; Reis;Gelbar; Madaus, 2022). A participação em um atendimento educacional especializado ao estudante superdotado foiidentificada pelos psicólogos entrevistados como geradora de benefícios aos estudantes com dupla excepcionalidade. Isso, porém, não significa negligenciar a avaliação e intervenção em relação às dificuldades por eles apresentadas. O que se defende é a necessidade de contemplar também suas habilidades superiores, seus interesses e estilos de aprendizagem.
Os participantes do estudo apontaram desafios no atendimento ao estudante com dupla excepcionalidade, como, por exemplo, oportunidades limitadas de formação continuada, número elevado de avaliações a serem realizadas e insuficiência de recursos materiais. Em contrapartida, avanços também foram mencionados, em especial a dedicação e comprometimento da equipe do atendimento, bem como o esforço conjunto de psicólogos e professores para desconstrução de ideias estereotipadas sobre o superdotado, promovendo maior visibilidade e conscientização sobre o fenômeno da dupla excepcionalidade. Ser identificado como um estudante com dupla excepcionalidade não pode se considerado um rótulo ou um limitador. Ao contrário, é fundamental apoiá-los, ajudá-los a identificar seus pontos fortes e interesses, “habilitando-os a olhar para além do status quo e encontrar soluções que funcionem para eles, em vez de tentar usar soluções que funcionam para outras pessoas” (Kircher-Morris, 2022, p. 16).
Considerações finais
Os resultados deste estudo reforçam a necessidade de compreender o perfil dos estudantes com dupla excepcionalidade e de implementar práticas psicoeducacionais adequadas a esse grupo, o que envolve: (a) superar estereótipos e preconceitos acerca das potencialidades desse indivíduo, (b) preparar profissionais da psicologia e da educação aptos a identificar e atender às necessidades únicas de estudantes superdotados com TDAH, TEA ou Transtornos Específicos de Aprendizagem, (c) promovertrabalho conjunto entre atendimento especializado e sala de aula comum, e (d) estabelecer parcerias produtivas família-escola. Ao psicólogo escolar, portanto, cabe desempenhar atribuições que vão além da avaliação desse estudante. Reconhece-se que os desafios de atuação são numerosos, conforme evidenciado nos achados desta pesquisa. Nestesentido, oferecer melhores condições de trabalho a esses profissionais e fortalecer uma rede de apoio institucional pode contribuir para a ampliação das práticas, favorecendo o desenvolvimento acadêmico, social e emocional desses estudantes e suas famílias.
Como limitações deste estudo, podem ser apontados o número reduzido de participantes, a restrição da amostra a psicólogos escolares vinculados a um único serviço de atendimento ao estudante superdotado, e a utilização de um instrumento de autorrelato, como a entrevista, que pode gerar um viés de desejabilidade social. Para estudos futuros, sugerem-se as seguintes direções: (a) examinar como famílias, professores e os próprios estudantes avaliam as práticas de atendimento psicoeducacional a estudantes com dupla excepcionalidade; (b) realizar estudos longitudinais para acompanhamento do desenvolvimento acadêmico e socioemocional do estudante com dupla excepcionalidade; (c) conduzir pesquisas envolvendo observação, tanto em salas de recursos de atendimento educacional especializado quanto em sala de aula comum, das práticas psicoeducacionais implementadas; e (d) investigar o impacto da participação em um atendimento educacional especializado ao superdotado no desempenho acadêmico e fatores psicossociais de estudantes com dupla excepcionalidade. Os resultados obtidos neste estudo fornecem subsídios que podem ajudar psicólogos escolares a construírempráticas baseadas em evidências, em sintonia com as características e necessidades dos estudantes com dupla condição, descontruindo ideias estereotipadas e preconceitos acerca de quem são esses indivíduos, e criando, assim, juntamente com a equipe escolar, oportunidades de desenvolvimento e aprendizagem para esse público.
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Notas
1 O presente trabalho foi realizado com apoio do CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Brasil (Processo no 303788/2022-4).