Comparao entre variveis de mes de crianas com Autismo e Sndrome de Down na Educao Infantil e no Ensino Fundamental

 

Comparison between variables of mothers of children with Autism and Down Syndrome in Early Childhood and Elementary Education

 

Comparacin entre variables de madres de nios con Autismo y Sndrome de Down en Educacin Infantil y Educacin Bsica

 

Cariza de Cssia Spinazola

Universidade Federal de So Carlos, So Carlos SP, Brasil.

carizaspinazola@gmail.com

       

Fabiana Cia

Universidade Federal de So Carlos, So Carlos SP, Brasil.

fabianacia@ufscar.br

       

Aline Maira da Silva

Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados MS, Brasil.

alinemaira@yahoo.com.br

 

Recebido em 14 de outubro de 2024

Aprovado em 22 de agosto de 2026

Publicado em 31 de agosto de 2026

 

RESUMO

A famlia caracteriza-se como o principal contexto de desenvolvimento da criana. O nascimento de um filho implica mudanas e adaptaes na dinmica familiar, especialmente quando a criana apresenta Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou alguma deficincia. Dessa forma, a pesquisa tem como objetivos identificar e comparar as necessidades, o suporte social e a satisfao parental de familiares de crianas da Educao Infantil e do Ensino Fundamental com Sndrome de Down e/ou TEA, assim como correlacionar essas variveis. Participaram mes de crianas com Sndrome de Down e/ou TEA divididas em G1 (20 mes de crianas da Educao Infantil) e G2 (20 mes de crianas do Ensino Fundamental). Para coleta de dados foram utilizados os instrumentos Critrio Brasil, Questionrios das Necessidades Familiares, Questionrio de Suporte Social e Escala de Satisfao Parental. Para comparao entre os grupos foi aplicado o teste-t e para correlacionar os dados foi utilizado o teste de correlao de Pearson. As mes do G1 apresentaram maior necessidade de informaes sobre a maneira de lidar com os filhos, maior nmero de pessoas com quem contar e maior nvel de satisfao com o suporte recebido. Por sua vez, as mes do G2 mostraram maior necessidade de tempo para falar com terapeutas e professores dos filhos. Ambos os grupos mencionaram necessidade de profissionais especializados e de apoio financeiro. Como concluso, foi identificada a importncia de redes de apoio mais efetivas para famlias de crianas com TEA e/ou Sndrome de Down e apontados subsdios para polticas pblicas e programas de interveno.

Palavras-chave: Educao Especial; Famlia; Pessoa com deficincia.

 

ABSTRACT

The family is characterized as the primary context for a child's development. The birth of a child entails changes and adjustments in family dynamics, particularly when the child has Autism Spectrum Disorder (ASD) or a disability. Accordingly, this research aims to identify and compare the needs, social support and parental satisfaction of family members of Early Childhood education and Elementary Education children with Down Syndrome and/or ASD and to relate these variables. Participating mothers of children with Down syndrome and/or autism were divided into G1 (20 mothers of early childhood education children) and G2 (20 mothers of elementary education children). Data collection involved the use of the Critrio Brasil instrument, the Family Needs Questionnaire, the Social Support Questionnaire, and the Parental Satisfaction Scale. A t-test was used to compare the groups, and Pearson's correlation test was used to correlate the data. The mothers in G1 had a greater need for information about how to manage their children, a greater number of people to rely on, and higher levels of satisfaction with the support they received. In turn, the mothers in group G2 showed a greater need for time to talk to the children's therapists and teachers. Both groups mentioned the need for specialist professionals and financial support. In conclusion, the importance of more effective support networks for families of children with ASD and/or Down syndrome was identified, and insights were provided to inform public policies and intervention programs.

Keywords: Special Education; Family; Person with disability.

 

RESUMEN

La familia se caracteriza por ser el contexto principal para el desarrollo infantil. El nacimiento de un hijo conlleva cambios y ajustes en la dinmica familiar, especialmente cuando el nio presenta Trastorno del Espectro Autista (TEA) o alguna discapacidad. En consecuencia, esta investigacin tiene como objetivo identificar y comparar las necesidades, el apoyo social y la satisfaccin de los padres de nios con Sndrome de Down y/o TEA de Educacin Infantil y Bsica, as como correlacionar estas variables. Las participantes fueron madres de nios con Sndrome de Down y/o TEA divididas en G1 (20 madres de nios en Educacin Infantil) y G2 (20 madres de nios en Educacin Bsica). La recoleccin de datos incluy el uso del instrumento Critrio Brasil, el Cuestionario de Necesidades Familiares, el Cuestionario de Apoyo Social y la Escala de Satisfaccin Parental. Se utiliz una prueba t para comparar los grupos y la prueba de correlacin de Pearson para correlacionar los datos. Las madres del G1 presentaron una mayor necesidad de informacin acerca de cmo lidiar con sus hijos, mayor nmero de personas con quien contar y un mayor nivel de satisfaccin con el apoyo recibido. A su vez, las madres del grupo G2 mostraron una gran necesidad respecto al tiempo para hablar con los terapeutas y profesores de sus hijos. Ambos grupos mencionaron la falta de profesionales especializados y de apoyo financiero. En conclusin, se identific la importancia de contar con redes de apoyo ms eficaces para las familias de nios con TEA y/o sndrome de Down, y se aportaron perspectivas para orientar las polticas pblicas y los programas de intervencin.

Palabras clave: Educacin Especial; Familia; Persona con Discapacidad.

 

 

 

Introduo

 

A famlia caracteriza-se como um contexto de socializao das relaes infantis, sendo a responsvel pela mediao entre sociedade e criana. ainda nesse contexto familiar que so transmitidos comportamentos, valores, cultura, linguagens, usos e costumes (Sigolo, 2004). Segundo Paniagua e Palcios (2007), as famlias se diferem umas das outras nos aspectos que se referem composio, ao funcionamento interno e s relaes. As relaes estabelecidas por cada membro no contexto familiar apresentam especificidades e qualidades distintas.

Com o nascimento de um filho so exigidas por parte das famlias adaptaes e estratgias para lidar com a chegada de um novo membro, juntamente com suas necessidades e demandas advindas do sistema. Nesse sentido, estudos na rea da Educao Especial e do Desenvolvimento Humano tm apontado a relevncia de estudar a famlia, no apenas no que diz respeito maximizao do desenvolvimento infantil, mas tambm ao suporte social para todos os envolvidos, principalmente em famlias de crianas com deficincia (Dessen; Silva, 2004).

Seguindo este ponto de vista, o estudo de Gualda, Borges e Cia (2013) objetivou problematizar quais eram os recursos e as necessidades de famlias de crianas com deficincia. Participaram dessa pesquisa 12 pais de crianas com deficincia matriculadas na pr-escola, os quais tinham poder aquisitivo de mdio a mdio-baixo. Para alcanar os objetivos foram utilizados o Inventrio de Recursos do Ambiente Familiar (RAF) e o Questionrio sobre as Necessidades Familiares (QNF). Os resultados revelaram que os pais promoviam um ambiente estimulador aos filhos, principalmente no que tange s tarefas escolares, e por meio da preocupao com os atendimentos na sala de recursos e em instituio. Em relao s necessidades familiares, os pais apontaram maiores ndices nos quesitos: (a) mais informaes acerca dos servios e apoios que seu filho poder usufruir futuramente; (b) ter o acompanhamento de pessoas habilitadas a falar sobre a deficincia do filho; (c) saber explicar a situao de seu filho para amigos, crianas e vizinhos; (d) encontrar servio de apoio social e educativo; (e) financeiramente e (f) ter espao ou algum para discutir e encontrar solues.

Estudos como esse, vm elencar algumas das necessidades apontadas pelos pais de crianas com deficincia, alm de reforar a necessidade do oferecimento de redes de apoio social (Correia; Serrano, 2008), que podero atuar como possveis recursos para a minimizao das necessidades familiares, diante das situaes de dificuldades (Gualda et al., 2013).

Destaca-se que as famlias que tinham filhos com alguma deficincia em perodos anteriores eram identificadas como famlias em uma condio patolgica permanente, ou seja, a viso era a de que todas as adversidades eram provenientes da situao do filho com deficincia. Com a perspectiva atual, os estudos com as famlias retratam uma realidade em que outras variveis influenciam o contexto e a dinmica familiar, sendo desse modo uma viso com enfoque nas dinmicas e na organizao familiar (Sigolo; Rinaldo; Raniro, 2015; Omote; Cabral, 2024; Spinazola; Cia; Silva, 2026). Portanto, no que diz respeito s famlias de crianas com deficincia, torna-se importante destacar que a deficincia do filho uma varivel a ser analisada, mas que devem ser associadas a outros fatores tais como organizao familiar, redes de apoio, situao poltica, questes sociais e ambiente familiar (Spinazola; 2017; Silva; Dessen, 2006).

Alm da satisfao entre o casal, torna-se importante destacar a satisfao em relao parentalidade, que se refere aos sentimentos e percepes de contentamento, gratificaes ou no diante dos cuidados, demandas e responsabilidades com os filhos. O estudo de Beighton e Wills (2019), por meio de um levantamento bibliogrfico revelou os aspectos que os pais de crianas com deficincia intelectual (DI) descrevem como positivos no que se refere a educar um filho com DI. Os resultados identificaram que as categorias desmembradas dos estudos se referem aos seguintes aspectos positivos: percepo diferente da vida, o filho como fonte de realizao e felicidade, aperfeioamento nas relaes, impacto positivo que a criana tem sobre os irmos, os tornando mais empticos e atenciosos, espiritualidade ou religiosidade aumentada e o cuidado com o filho, tendo a oportunidade de lhe dar uma vida digna. Dessa maneira, destaca-se que os estudos trazem variveis que envolvem diferentes aspectos, evidenciando que no se deve estigmatizar as famlias de crianas com deficincia negativamente.

Outros estudos desenvolvidos investigaram algumas variveis, corroborando com pesquisas mencionadas. Santos (2014) e Spinazola (2014) revelaram em seus estudos que as famlias de crianas Pblico da Educao Especial, demostraram necessidades, recursos familiares, suporte social, estresse e empoderamento diferenciados conforme a faixa etria da criana. Ou seja, para cada faixa etria, supe-se que as famlias vo adquirindo novos conhecimentos e necessitando de suportes e recursos caractersticos para cada idade que a criana com deficincia se encontra.

A pesquisa de Pavo et al. (2018) objetivou identificar a rotina e as necessidades de apoio das famlias de crianas Pblico da Educao Especial, de zero a dois anos e relacionar as variveis. Participaram do estudo 24 famlias, sendo 23 mes e um pai. Para coleta de dados foram utilizados os instrumentos de necessidades das famlias (QNF) e um inventrio de recursos do ambiente familiar. A anlise dos dados foi quantitativa, utilizando mtodos descritivos. Para correlacionar os dados foi utilizado o teste de correlao de Pearson. Os resultados identificaram que as crianas recebiam estmulos, no entanto, possuam pouca variedade de materiais. Em relao necessidade, percebeu-se que a maioria delas tinha relao com informao e apoio. Os dados correlacionais indicaram como principais: quanto maiores as necessidades de informaes, maiores as necessidades de apoio. As necessidades em relao ao apoio tambm estiveram correlacionadas negativamente com necessidades de informaes, de explicar a situao do filho, de servios da comunidade e funcionamento da vida familiar.

Nessa linha, outros estudos corroboram com os dados apresentados, indicando as necessidades das famlias e sua rotina. Alm disso, tais pesquisas evidenciam que a minimizao das necessidades est associada ao nvel de suporte social que as famlias recebem, indicando a relevncia de intervenes, polticas pblicas e servios voltados s necessidades de famlias de crianas Pblico da Educao Especial (Gualda, 2015; Spinazola et al., 2018).

De modo geral, ao realizar-se um panorama dos estudos atuais voltados s famlias de crianas Pblico da Educao Especial, identifica-se que estas famlias apresentam necessidades familiares, estresse aumentado e suporte social mediano, o que gera a necessidade de ampliao das redes de apoios para elas (Gualda; Borges; Cia, 2013; Santos, 2014; Cia; Gualda; Christovam, 2015; Spinazola et al., 2018; Pavo et al., 2018). Alm disso, foram encontrados estudos especficos que envolvem a satisfao parental e os aspectos positivos em famlias de crianas com deficincia (Hastings; Taunt, 2002; Taanila et al., 2002; Brito; Silva, 2019; Beighton; Wilss, 2019).

Embasado nestes estudos, destaca-se a importncia da oferta de apoio a estas famlias, principalmente as advindas da rede pblica, e sua relao com a satisfao parental. Desse modo, identificar variveis e opinies especficas para cada grupo (Educao Infantil e Ensino Fundamental) para possveis intervenes nas esferas pblicas torna-se relevante para as famlias, crianas, escolas e servios pblicos. Alm disso, esta identificao possibilita subsidiar possveis aes e futuras pesquisas especficas a cada grupo, pois cada etapa de ensino possui suas caractersticas e estilos, assim como crianas em diferentes fases do desenvolvimento e idade, o que pode acarretar diferenas ou no em suas necessidades.

Na Educao Infantil, o cuidar e o educar so indissociveis, pois nesta etapa do desenvolvimento, as crianas apresentam necessidades de ateno, cuidados, carinho e segurana para sua sobrevivncia (Bujes, 2001). Nesse sentido, Carneiro e DallAcqua (2014) discutem sobre a importncia da incluso escolar na Educao Infantil, destacando que, nesta modalidade de ensino, devem ser garantidas condies favorveis para o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos Pblico da Educao Especial.

No Ensino Fundamental, o foco inicial a alfabetizao, baseado nos componentes que constituem o currculo. Nessa etapa, espera-se que as crianas sejam mais independentes e tenham mais autonomia. A famlia pode demandar outras necessidades e expectativas em relao ao desenvolvimento da criana. Nessa fase, os pais de crianas Pblico da Educao Especial podem sentir a necessidade de intensificao da oferta de servios na busca pela alfabetizao do filho, assim como as famlias, j nesse momento, podem ter passado pelo choque e adaptao rotina com os filhos, suscitando outras necessidades e apoio das pessoas.

Destaca-se que a famlia um dos elementos do processo de incluso escolar. Em vista disso, pesquisas no campo da Educao Especial tm sido desenvolvidas com o objetivo de compreender como estabelecer, manter e potencializar a relao entre a escola e os familiares. Defende-se que a busca pela parceria com os familiares envolve conhecer quais variveis afetam a dinmica familiar e quais so as necessidades apresentadas. A literatura que envolve estudos sobre famlias de crianas com autismo ou deficincia aborda as variveis do presente estudo de forma isolada, sem relacionar ou mesmo sem comparar famlias de crianas que esto em diferentes nveis de escolarizao.

Frente ao cenrio apresentado, o presente estudo partiu do seguinte questionamento: existem diferenas nas necessidades familiares, suporte social e satisfao parental de famlias de crianas que esto na rede pblica de ensino na etapa da Educao Infantil e do Ensino Fundamental? A partir desse questionamento, o estudo teve como objetivos: (a) identificar e comparar as necessidades, o suporte social e a satisfao parental de familiares de crianas da Educao Infantil e do Ensino Fundamental com sndrome de Down e/ou autismo e (b) correlacionar as variveis.

 

Mtodo

 

Para atingir os objetivos propostos foram utilizados dois delineamentos, descritivo e correlacional (Sampieri; Collado; Lucio, 2006). Quanto aos procedimentos ticos, a pesquisa foi aprovada pelo Comit de tica em Pesquisa da Universidade 88918518.0.0000.5504 - CAAE). Alm disso, as participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e, no decorrer do artigo, os municpios nos quais o estudo foi conduzido, assim como a identidade das participantes no sero revelados.

Participaram da pesquisa 40 mes de crianas com TEA e/ou Sndrome de Down, que foram divididas em dois grupos (G1 e G2). O G1 (EI) foi formado por 20 mes de crianas com TEA ou Sndrome de Down, com idade entre trs e seis anos e que estavam matriculadas a rede municipal de trs municpios de mdio porte do interior do Estado de So Paulo, na etapa de Educao Infantil. O G2 (EF) foi formado por 20 mes de crianas com TEA e/ou Sndrome de Down matriculadas no Ensino Fundamental at o terceiro ano, com idade de seis a nove anos, provindas dos mesmos municpios.

Optou-se por mes de crianas que estavam nos trs ltimos anos da etapa de Educao Infantil e nos trs primeiros anos da etapa do Ensino Fundamental para no haver um distanciamento em relao idade das crianas. Alm disso, definiu-se que as crianas deveriam estar matriculadas na rede pblica de ensino, buscando mostrar a realidade das famlias que, na maioria das vezes, necessitam de servios e apoios advindos tambm da rede pblica.

A mdia de idade das mes do G1 (EI) era de 38,8 anos, variando de 28 a 49 anos de idade. Em relao escolarizao, 50% das mes possua ensino mdio completo e 25% ensino superior completo. Quanto profisso/ocupao, 55% das mes estavam desempregadas, caracterizando como mulheres do lar. A renda familiar variou entre R$ 998,00 a R$ 6.500,00. O Critrio Brasil apontou que aproximadamente um tero das mes do G1 estavam classificadas na categoria B2 (35%), seguido de 30% das mes na categoria C1.

A mdia de idade das crianas do G1 (EI) foi de 4,2 anos de idade, variando de trs a seis anos. Em relao ao diagnstico, 20% das crianas tinham Sndrome de Down e 80% TEA. Ao que se refere ao gnero, 85% eram meninos e 15% meninas. Quanto escolarizao, 80% das crianas frequentavam apenas a escola regular e 20% a escola regular e a instituio de educao especial.

Quanto caracterizao das mes do G2 (EF), a mdia de idade foi de 38,3 anos, variando de 28 a 58 anos. Em relao escolarizao, a prevalncia foi ensino mdio completo (40%), seguido de ensino superior completo (20%). Ao que se refere profisso/ocupao, 50% das mes estavam desempregadas, caracterizando-se como do lar. O Critrio Brasil apontou que 50% das mes eram classificadas como C1, seguido de 15% na categoria B1 e C2. Em relao renda familiar houve variaes, sendo de R$ 998,00 a R$ 18.000 mensais.

A mdia de idade das crianas do G2 (EF) foi de oito anos. Em relao ao diagnstico, 5% possua Sndrome de Down e TEA, 15% tinham Sndrome de Down e 80% tinham TEA, sendo que a h um casal de gmeos (F17). Ao que se refere ao gnero, 70% eram meninos e 30% meninas. Na escolarizao, 30% das crianas frequentavam a escola regular e instituio de educao especial e 70% crianas frequentavam somente a escola regular.

A coleta de dados aconteceu nas residncias das mes, que se localizavam em trs municpios, sendo dois de mdio porte e um de pequeno porte. Foram utilizadas quatro medidas avaliativas: Questionrio Critrio Brasil; Questionrio sobre as necessidades das famlias (QNF); Questionrio de suporte social (QSS); Escala de Satisfao Parental.

O Questionrio Critrio Brasil (Associao Brasileira de Empresas de Pesquisa- ABEP, 2011) avalia a posse de bens de consumo durveis e o grau de instruo do chefe da famlia. Os dados fornecem a classificao quanto ao poder aquisitivo.

Por sua vez, o Questionrio sobre as necessidades das famlias - QNF (Pereira, 1996) constitudo por 28 itens, distribudos em seis tpicos: (a) necessidades de informao; (b) necessidade de apoio; (c) explicar a outros; (d) servios da comunidade; (e) necessidades financeiras; (f) funcionamento da vida familiar.

O Questionrio de Suporte Social QSS (traduzido e validado por Matsukura; Marturano; Oishi, 2002) foi construdo para avaliar o contexto social no qual a famlia est inserida. composto por 27 questes.

Por fim, a Escala de Satisfao Parental (Halverson; Duke, 1991 adaptado por Martins, 2008) composta por 29 afirmaes, divididas em trs dimenses: prazeres da parentalidade, fardos da parentalidade e importncia da parentalidade. Alm disso, h uma afirmao final sobre o grau de satisfao parental, totalizando 30 questes.

Em um dos municpios, foi estabelecido contato com a Secretaria de Educao, a fim de autorizar a realizao da pesquisa em escolas pblicas de Educao Infantil e Ensino Fundamental, que tivessem crianas com autismo e/ou Sndrome de Down matriculadas. Aps o aceite das direes das referidas escolas, foi estabelecido contato com as famlias de trs formas: (a) via bilhete enviado na agenda dos filhos, explicando os objetivos da pesquisa e verificando o interesse na participao; (b) por contato telefnico e (c) via WhatsApp.

Nos dois outros municpios o contato com os pais foi via trs grupos de apoio para famlias de crianas com autismo ou sndrome de Down. Foi realizado contato direto com as mes, a fim de explicar os objetivos da pesquisa e os procedimentos de coleta de dados. Por fim, algumas participantes foram contatadas por indicao de outras mes que j tinham participado do estudo.

A coleta de dados seguiu o mesmo padro para todas as famlias, sendo assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, com posterior aplicao dos instrumentos junto s mes participantes do estudo na seguinte ordem: Critrio Brasil, Questionrio sobre as necessidades familiares, Questionrio de suporte social, Questionrio de satisfao parental e Questionrio de caracterizao do sistema familiar. Todos os instrumentos foram aplicados em forma de entrevista, na casa das participantes, em dia e horrio previamente agendados, conforme a disponibilidade das mes. As entrevistas tiveram durao de 40 a 120 min cada.

Em relao a anlise de dados, os instrumentos forneceram dados quantitativos, em que foram realizadas anlises de tendncia central e disperso. Para comparao entre os grupos foi aplicado o teste-t e para correlacionar os dados foi utilizado o teste de correlao de Pearson. Devido ao tamanho da amostra optou-se como ponto de corte de significncia p<0,1 (tendncia a diferena estatisticamente significativa).

 

Resultados e Discusso

 

Sero apresentados os resultados referentes comparao das necessidades familiares, do suporte social e da satisfao parental das mes de crianas do G1 (EI) e do G2 (EF).

 

Necessidades das famlias

 

A Tabela 1 compara as necessidades, entre os dois grupos. Optou-se por apresentar os dados dos valores totais de cada subescala e os itens que apresentaram diferenas estatisticamente significativas sero apresentados em forma descritiva, aps a Tabela 1.

 

Tabela 1 - Necessidades das mes

Escala de necessidades das famlias

Mdia

DP

Mdia

DP

 

G1 (EI)

G2 (EF)

Fator 1 Necessidades de informao

2,84

0,25

2,63

0,43

Fator 2 Necessidades de apoio

2,22

0,55

2,50

0,34

Fator 3 Necessidades de explicar aos outros

2,05

0,73

2,06

0,66

Fator 4 Servios da comunidade

2,38

0,67

2,28

0,61

Fator 5 Necessidades financeiras

2,06

0,57

2,05

0,55

Fator 6 Funcionamento da vida familiar

1,60

0,70

1,73

0,15

Total da escala

2,28

0,38

2,30

0,30

Nota: A avaliao das necessidades variou entre 1 (no necessito deste tipo de ajuda); 2 (no tenho certeza se necessito deste tipo de ajuda); e 3 (necessito deste tipo de ajuda).

Fonte: Tese defendida pelo primeiro autor.

 

Como mostram os dados da Tabela 1, em ambos os grupos de mes, as maiores necessidades foram as de informao, servios da comunidade e apoio.

Brito e Silva (2019) tambm indicaram em seu estudo com familiares de crianas com deficincia da Educao Infantil e do Ensino Fundamental que as principais necessidades estavam relacionadas a informaes, sendo a maior porcentagem em relao aos servios educacionais. Na sequncia tambm revelaram as necessidades de informaes sobre cuidados, estratgias na educao e nos benefcios em que as crianas tm direito, indicando a precarizao das polticas pblicas, principalmente nos servios sociais e educacionais.

Tais dados nos mostram que apesar de as famlias terem contato com informaes via internet ou mesmo por meio de profissionais da rea da Sade e da Educao, ainda existem lacunas sobre informaes relacionadas ao TEA e a Sndrome de Down. Verifica-se a necessidade de os servios focarem mais nas reais necessidades dos familiares e de possibilitar que estes tenham espaos para sanar dvidas e compartilhar informaes com outros os profissionais da rea da Sade que atendem seus filhos ou mesmos com professores e outros pais.

Em relao as necessidades de apoio, tem-se como principais aspectos a necessidade de ter mais tempo para realizao de tarefas para si mesmo, oportunidade de se encontrar e falar com pais de outras crianas com deficincia, assim como necessidade de se encontrar regularmente com algum profissional e com algum da famlia com quem possa falar mais sobre os problemas relacionados com a deficincia do filho. As mes apontaram a insatisfao e a falta de ter algum com quem possa conversar, assim como ter algum para distra-las de suas preocupaes. Esse quesito se relaciona com o tempo para si prprias, pois esse tempo inclui sair para conversar com amigas, sair sem a presena dos filhos e ter oportunidades de participar de eventos sociais, o que possivelmente acarretaria menor nvel de estresse.

Para Smeha e Cezar (2011), as mes de crianas com autismo possuem uma sobrecarga na maternidade, pois dedicam-se intensamente aos filhos, deixando de ter tempo para si prprias. Portanto, destaca-se que redes de apoios so fundamentais para que a maternidade seja menos sofrida, tornando as mes mais confiantes e menos sobrecarregadas. De fato, o estudo de Azevedo (2014) indicou que mes de crianas com deficincia avaliaram positivamente o grupo de mes, enfatizando a oportunidade de trocas de experincias, assim como o aprendizado com os profissionais que ofereciam as palestras.

Nesse sentido, as escolas poderiam criar espaos de acolhimentos aos pais, por exemplo, organizando grupos de pais de crianas com deficincia ou oportunidade de os professores, principalmente de Educao Especial, conversarem com os pais.

Quanto aos servios da comunidade, tem-se a necessidade de recorrer a servios particulares e/ou associ-los a servios pblicos, ou mesmo a necessidade de ajuda para encontrar servios de apoio e educativo para seus filhos. Nota-se a importncia da criao de polticas pblicas para atender as demandas de servios. Muitos servios so oferecidos para crianas bem pequenas, como os servios de estimulao precoce e outras demandas vo surgindo ao longo do desenvolvimento da criana que tambm requerem suporte.

Ao comparar os grupos, identificou-se que o G1 (EI) comparado com o G2 (EF) apresentou uma mdia estatisticamente maior em relao necessidade de informaes sobre a maneira de lidar com o filho (t (29,3) = 2,14, p<0,05, mdia do G1 = 2,90 e do G2 = 2,45) e o G2 (EF) comparado com o G1 (EI), apresentou uma mdia estatisticamente maior ao que se refere a necessidade de mais tempo para conversar com os professores e terapeutas dos filhos (t(32,2) = 3,57, p<0,01, mdia do G1 = 1,80 e do G2 = 2,75). Os resultados revelam que, nos dois nveis, h demanda por aes voltadas para esclarecer dvidas que os familiares podem ter no que diz respeito aos direitos, sade e escolarizao das crianas com TEA e/ou Sndrome de Down. A escola pode planejar tais aes em parceria com outros setores, como o da assistncia social, por exemplo. Destaca-se que contemplar a necessidade de informaes pode contribuir com o aprimoramento da relao entre famlia e escola e, consequentemente, favorecer o processo de incluso escolar.

 

Suporte social

 

A Tabela 2 compara o grau de satisfao com o suporte recebido pelos familiares.

 

Tabela 2 - Grau de satisfao com o suporte social recebido.

Questionrio de Suporte Social

Mdia

DP

Mdia

DP

 

 

G1 (EI)

G2 (EF)

Com quem voc pode contar para dar sugestes teis que ajudam voc a no cometer erros

5,75

0,55

4,70

1,80

 

Com quem voc pode realmente contar para apoia-la em decises importantes que voc toma

5,70

0,66

4,65

1,90

 

Quem voc sente que gosta de voc verdadeira e profundamente

5,70

0,66

5,80

0,52

 

Com quem voc pode contar para lhe dizer delicadamente, que voc precisa melhorar em alguma coisa

5,60

0,68

5,00

1,59

 

Quem voc acha que poderia ajudar se morresse um parente seu muito prximo

5,60

1,19

4,85

1,69

 

Com quem voc pode contar para preocupar-se com voc independente do que esteja acontecendo com voc

5,50

1,00

4,70

1,87

 

Voc acha que parte importante da vida de quais pessoas

5,55

1,19

5,85

0,36

 

Quem vai confortar e abraar voc quando voc precisar disso

5,50

1,23

5,25

1,48

 

Quem aceita voc totalmente, incluindo o que voc tem de melhor e de pior

5,40

1,23

5,20

1,40

 

Com quem voc pode realmente contar para ajud-la a sentir melhor quando voc est muito irritada e pronta para ficar brava com qualquer coisa

5,30

1,56

4,25

2,12

 

Com quem voc pode realmente contar para ajud-la a sentir-se melhor quando voc est deprimida

5,35

1,53

5,10

1,68

 

Quem voc acha que realmente aprecia voc como pessoa

5,25

1,55

5,35

1,18

 

Quem voc acha que poderia ajudar se voc fosse casada e tivesse acabado de se separar

5,20

1,44

4,45

2,01

 

Quem voc acha que ajudaria se um bom amigo seu tivesse sofrido um acidente de carro e estivesse hospitalizado em estado grave

5,10

1,52

4,55

2,06

 

Com quem voc pode ser totalmente voc mesma

5,05

1,82

5,20

1,70

 

Com quem voc pode realmente contar quando voc precisa de ajuda

5,00

1,80

5,15

1,34

 

Com quem voc pode conversar francamente sem ter que se preocupar com que diz

4,95

2,03

4,45

1,90

 

Com quem voc realmente pode contar para ajud-la a ficar mais relaxada quando voc est sob presso ou tensa

4,90

1,83

3,75

2,46

 

Com quem voc realmente pode contar para ouvi-la quando voc precisa conversar

4,90

1,92

4,55

1,86

 

Com quem voc realmente pode contar para ouvir voc, quando voc est brava com algum

4,80

2,01

4,75

1,97

 

Com quem voc pode realmente contar para ajud-la se uma pessoa que voc pensou que era um bom amigo insultou voc e disse que no queria ver voc novamente

4,80

1,76

4,30

2,00

 

Quem ajuda voc a sentir que voc verdadeiramente tem algo positivo que pode ajudar os outros

4,75

2,00

4,85

1,81

 

Com quem voc pode realmente contar para consol-la quando est muito contrariada

4,70

0,93

4,30

2,00

 

Com quem voc poderia realmente contar para ajudar caso voc fosse despedida do emprego

4,70

1,98

4,20

2,16

 

Com quem voc poderia realmente contar para ajud-la a sair de uma crise, mesmo que para isso est pessoa tivesse que deixar seus prprios afazeres para ajudar voc

4,45

2,11

4,50

2,11

 

Com quem voc realmente pode contar para distrai-la de suas preocupaes quando voc se sente estressada

4,10

2,17

 

4,65

1,93

 

Com quem voc pode contar para ouvir seus sentimentos mais ntimos de forma aberta e sem criticar voc

4,05

2,21

4,50

2,09

 

Total da escala

5,09

0,86

4,77

1,30

 

Nota: A pontuao variou entre 1(muito insatisfeito), 2 (razoavelmente insatisfeito), 3 (um pouco insatisfeito), 4 (um pouco satisfeito), 5 (razoavelmente satisfeito) e 6 (muito satisfeito).

Fonte: Tese defendida pelo primeiro autor.

 

Como mostram os dados da Tabela 2, no G1 (EI), as maiores mdias foram em relao satisfao com os seguintes itens: com quem voc pode contar para dar sugestes teis que ajudam voc a no cometer erros, com quem voc pode realmente contar para apoi-la em decises importantes que voc toma e quem voc sente que gosta de voc verdadeira e profundamente. No G2 (EF), os quesitos com maior nvel de satisfao foram: voc acha que parte importante da vida de quais pessoas, quem voc sente que gosta de voc verdadeira e profundamente e quem voc acha que realmente aprecia voc como pessoa.

Na comparao entre os grupos, identificou-se que o G1 (EI) apresentou uma mdia estatisticamente maior, em comparao ao G2 (EF) nos seguintes itens: com quem voc pode contar para dar sugestes teis que ajudam voc a no cometer erros (t(22,4) = 2,48, p<0,05), com quem voc pode realmente contar para apoi-la em decises importantes que voc toma (t(23,4) = 2,33, p<0,05), com quem voc pode contar para preocupar-se com voc independente do que esteja acontecendo com voc (t(29,7) = 1,70, p<0,05) e com quem voc pode realmente contar para ajud-la a sentir melhor quando voc est muito irritada e pronta para ficar brava com qualquer coisa (t(34,8) = 1,78, p<0,05).

Em contrapartida, os itens com menor nvel de satisfao em ambos os grupos, foram: com quem voc realmente pode contar para distra-las de suas preocupaes quando voc se sente estressada e com quem voc pode contar para ouvir seus sentimentos mais ntimos de forma aberta e sem criticar voc. Os resultados demostram que essas mes no se sentiam satisfeitas com esses quesitos e levanta importantes questes sobre a sade mental e manejo de estresse. Essas mes esto dizendo o quanto necessitavam ser ouvidas e precisavam reduzir seus ndices de estresse. A escola pode contribuir com o aumento da satisfao em relao ao suporte social oportunizando momentos nos quais as famlias de crianas Pblico da Educao Especial possam compartilhar suas experincias positivas, dificuldades e dvidas.

Alguns estudos indicam a questo do estresse em mes de crianas com deficincia e explicitam que elas tm um estresse aumentado que so advindos da rotina e eventos dirios, causado uma sobrecarga na figura materna (Dyson, 1997; Constantinidis; Silva; Ribeiro, 2018). Nesse quesito, grupo de apoio psicolgico torna-se uma oportunidade importante como suporte emocional, de autoestima, contribuindo para construo de habilidades, escuta e promoo de sade (Kunst; Machado; Ribeiro, 2010). Alm disso, atividades de lazer e de preferncia, como sair para passear, ir para academias, fazer cursos, entre outros, so aspectos que podem favorecer as relaes sociais e diminuio do estresse.

 

Satisfao parental

 

A Tabela 3 compara o nvel de satisfao parental, entre os dois grupos.

 

Tabela 3 - Nvel de satisfao parental.

Escala satisfao parental

Mdia

DP

Mdia

DP

 

G1 (EI)

G2 (EF)

Fator 1 Prazeres da parentalidade

5,88

0,78

5,88

0,30

Fator 2 Fardos da parentalidade

4,59

0,71

4,76

0,48

Fator 3 Importncia da parentalidade

5,88

0,86

6,50

0,46

Total de escala

5,15

0,50

5,28

0,22

Nota: As respostas a estas afirmaes so a partir de uma escala likert (1=discordo sempre, 2= discordo frequentemente, 3= discordo ocasionalmente, 4= no concordo, nem discordo, 5= concordo ocasionalmente, 6= concordo frequentemente e 7= concordo sempre).

Fonte: Tese defendida pelo primeiro autor.

 

Segundo dados da Tabela 3, em relao ao fator 1 (prazeres da parentalidade), as mes de ambos os grupos apontaram grande nvel de satisfao, sendo o principal deles nos seguintes itens: observar os filhos a crescer e a desenvolverem-se especialmente satisfatrio, estar com o(s) meu(s) filho(s) uma grande fonte de satisfao para mim e tenho um grande prazer em ser me/pai.

No fator 2 (fardos da parentalidade), G1 (EI) e G2 (EF) mostraram maior satisfao nos itens: fico contente s de pensar nos momentos que passo com meu filho, as recompensas de ser me so mais importantes que todo o trabalho e esforo e ser me sempre foi agradvel para mim.

Em relao ao fator 3 (importncia da parentalidade), os grupos demonstraram maior mdia nos quesitos: tento estar com meu filho o mais que posso, porque sempre um prazer para mim, ser capaz de providenciar um bom lar para meu filho tem sido a grande fonte de satisfao para mim e adoro passar o tempo a ver os meus filhos. No houve diferenas estatisticamente significativas, entre o grupo de mes da EI e do EF.

O estudo de Silva e Ribeiro (2012) concluiu que apesar dos desafios constantes das mes, preconceito social, dificuldades em lidar com os filhos nas questes comportamentais e de comunicao e as necessidades na sade, elas amam os filhos e so capazes de abandonar seus desejos para viver em funo dos filhos e dizem no medir esforos para ajudar o desenvolvimento e um futuro melhor para os filhos. No entanto, importante considerar que as mes necessitam de suporte, para que consigam resguardar uma boa sade mental e cuidar de si. Destaca-se que o bem-estar fsico e emocional das mes impacta na disposio para estabelecer uma relao de parceria com a escola e contribuir com o processo de incluso escolar.

 

Resumo dos resultados e discusso

 

Em relao comparao entre as necessidades familiares de G1 (EI) e G2 (EF), identificou-se que o G1 (EI), comparado com o G2 (EF), apresentou uma mdia estatisticamente maior quanto necessidade de informaes sobre a maneira de lidar com o filho. Este dado pode ter relao com a idade das crianas, pois pais de crianas da Educao Infantil podem apresentar mais dvidas em relao a lidar com comportamentos e desenvolvimento da criana, necessitando de informaes, principalmente em relao ao que esperado para essa faixa etria. Um estudo desenvolvido com pais de crianas com deficincia revelou que, quanto mais novos os filhos, maiores as necessidades de informaes sobre como ensinar a criana e como lidar com a deficincia (Spinazola, 2014).

Em relao s necessidades de apoio, a comparao entre os grupos revelou que G2 (EF) apresentou uma mdia estatisticamente maior ao que se refere a necessidade de mais tempo para conversar com os professores e terapeutas dos filhos. Levando em considerao a realidade das escolas e a idade das crianas, este dado nos revela que quando as crianas esto no Ensino Fundamental pode haver uma ruptura na frequncia de contato com os pais.

As crianas j ingressam na escola sem acompanhamento e so mais independentes nesse sentido. Em contrapartida, na Educao Infantil esse contato mais frequente e os pais permanecem mais tempo em contato com os professores. No entanto, as mes do G2 (EF) demostraram ter essa necessidade, at por se tratar dos anos em que a criana deve ser alfabetizada, causando nos pais ansiedade e dvidas acerca do aprendizado dos filhos. Esse dado traz reflexes sobre a importncia de apoio aos pais dentro da escola e mostra a possibilidade de grupos de pais dentro da prpria escola ou locais em que a criana recebe atendimento (Correia; Serrano, 2008).

Destaca-se que as reas de Educao e de Sade poderiam ser aliadas na fomentao de servios e programas voltados para o suporte dos familiares. O estudo desenvolvido por Cerqueira-Silva e Dessen (2018) apontam para esse sentido, enfatizando a proposta de programas de educao familiar para rea da Sade e da Educao, embasado no modelo centrado na famlia, no qual as prprias famlias so estimuladas a serem protagonistas e seres ativos nas intervenes com os filhos com deficincia. Por fim, as autoras destacam a importncia do conhecimento e da integrao entre as reas e principalmente das famlias, dessa maneira torna-se possvel a construo de novos caminhos diante da complexidade que se d o desenvolvimento humano.

O modelo centrado na famlia prope que a escola modifique a sua forma de compreender e de lidar com os familiares. A partir deste modelo, preciso enfatizar as potencialidades das famlias, favorecer o seu empoderamento, e estabelecer uma relao de colaborao, na qual recursos, habilidades, conhecimentos e responsabilidades so compartilhados em vista de um objetivo comum, ou seja, o desenvolvimento da criana.

Em relao ao suporte social, no quesito satisfao com o suporte recebido, o G1 (EI) apresentou uma mdia estatisticamente maior, em comparao ao G2 (EF), nos seguintes itens: com quem voc pode contar para dar sugestes teis que ajudam voc a no cometer erros, com quem voc pode realmente contar para apoi-la em decises importantes que voc toma, com quem voc pode contar para preocupar-se com voc independente do que esteja acontecendo com voc e com quem voc pode realmente contar para ajud-la a sentir melhor quando voc est muito irritada e pronta para ficar brava com qualquer coisa. Estes resultados apontam que as mes de crianas da educao infantil se sentem mais satisfeitas com o suporte recebido.

Em nossa sociedade, mes de crianas pequenas recebem mais ajuda e apoio. A experincia da maternidade traz consigo mudanas importantes na rotina e vida da me e essas transformaes implicam em uma maior oferta de apoio social, principalmente nos primeiros anos de vida (Rapoport, Piccinini; 2011). Em contrapartida, quando a criana cresce, as pessoas induzem que as mes no necessitam mais de ajuda com tanta intensidade, pois as crianas esto maiores e por consequncia a me j est acostumada com a rotina, etc. Principalmente no que diz respeito aos familiares de crianas Pblico da Educao Especial, a relao entre famlia e escola precisa ser estabelecida e mantida ao longo de todo o processo de escolarizao e no apenas na Educao Infantil.

Quanto satisfao parental, no houve diferena estatisticamente significativa entre os grupos. Tal dado mostra a relevncia de no estigmatizar de forma negativa as famlias de crianas com deficincia, no negando as suas particularidades e necessidades, mas salientando a questo de tais mes, apesar de terem necessidades especficas, conseguiram lidar de forma positiva com as demandas da parentalidade.

 

Correlao entre as necessidades familiares, o suporte social, a satisfao parental e os dados sociodemogrficos das participantes

 

Em relao aos dados de correlao, sero apresentados apenas os que demonstraram ter diferenas estatisticamente significativas. A Tabela 4 mostra a relao significativa entre a idade das mes e os dados sociodemogrficos.

 

Tabela 4 - Relao entre a idade das mes e dados sociodemogrficos.

Variveis

Critrio Brasil

Idades das mes

0, 290 +

Nota = +p<0,1.

Fonte: Tese defendida pelo primeiro autor.

 

A Tabela 4 demonstra que quanto maior era a idade das mes, maior era o nvel socioeconmico da famlia (ou vice-versa). Por se tratarem de mes mais velhas, consequentemente j possuem maior estabilidade nesse sentido.

A Tabela 5 mostra a relao significativa entre a escolaridade das mes e os dados sociodemogrficos, nmero de pessoas suportivas, satisfao parental total, fardos da parentalidade e necessidades relacionadas ao funcionamento da vida familiar.

 

Tabela 5 Relao entre a escolaridade das mes, o suporte social recebido, a satisfao parental e as necessidades em relao ao funcionamento da vida familiar.

Variveis

Escolaridade das mes

Critrio Brasil

0,706***

Suporte social - nmero de pessoas suportivas

 0,438**

Satisfao Parental

-0,299+

Satisfao Parental Fator 2: Fardos da parentalidade

-0,228+

Necessidades Familiares Fator 6: funcionamento da vida familiar

-0, 312*

Nota = +p<0,1; *p<0,05; **p<0,01, ***p<0,001.

Fonte: Tese defendida pelo primeiro autor.

 

A Tabela 5 mostra que quanto maior era o nvel de escolaridade das mes, maior era o nvel sociodemogrfico, assim como o nmero de pessoas suportivas com quem as mes poderiam contar (ou vice-versa). Na sequncia, quanto menor era o nvel de escolaridade das mes, maior o nvel de satisfao parental total, o nvel de satisfao parental em relao ao fardo da parentalidade e maior era o nvel de necessidades referentes ao funcionamento da vida familiar (ou vice-versa).

Apesar das mes com maior escolaridade terem mais pessoas com quem contar, so mais insatisfeitas quanto satisfao parental, o que levanta a hiptese que elas podem ser mais crticas e exigentes quando a esse suporte, ou o suporte no atinge as mes a ponto de influenciar a satisfao enquanto seu papel de me, sendo algo mais tcnico em relao aos filhos. Alm disso, pode ser que muitas dessas mes com maior escolaridade abandonaram suas profisses ou interromperam a trajetria profissional para ficar com os filhos, o que pode ter acarretado a menor satisfao parental. Apesar disso, vale salientar que as mes dessa amostra apresentaram alta satisfao parental.

A Tabela 6 mostra a relao significativa entre a idade dos filhos e a satisfao parental em relao importncia da parentalidade e s necessidades de informao.

 

Tabela 6 Relao entre idade dos filhos, satisfao parental em relao a importncia da parentalidade e necessidades de informaes das mes

Variveis

Idade do filho

Satisfao Parental Fator 3: Importncia da parentalidade

0,319*

Necessidades Familiares Fator 1: necessidades de informao

-0,318*

Nota = *p<0,05.

Fonte: Tese defendida pelo primeiro autor.

 

A Tabela 6 aponta que quanto maior era a idade dos filhos, maior era o nvel de satisfao das mes em relao importncia da parentalidade (ou vice-versa). Alm disso, quanto menor era a idade dos filhos, maiores eram as necessidades de informaes das mes (ou vice-versa). Provavelmente mes de crianas mais velhas j conseguem administrar com maior facilidade o papel materno e consequentemente sentem-se mais satisfeitas. Por outro lado, mes de crianas mais novas ainda necessitam de maiores informaes acerca do desenvolvimento e da deficincia. Nessa fase, a busca por profissionais e informaes mais frequente.

A Tabela 7 mostra a relao significativa entre o nmero de pessoas suportivas das mes e o nvel sociodemogrfico das famlias.

 

Tabela 7 Relao entre o nmero de pessoas suportivas das mes e o nvel sociodemogrfico das famlias.

Variveis

Critrio Brasil

Nmero de pessoas suportivas

0,345*

Nota = *p<0,05.

Fonte: Tese defendida pelo primeiro autor.

 

A Tabela 7 revela que, quanto maior era o nvel sociodemogrfico das famlias, maior era o nmero de pessoas suportivas das mes (ou vice-versa). Mes com maiores condies financeiras podem contar com mais pessoas, at porque podem ter maiores condies de pagar babs e outros profissionais que ajudam nos cuidados com os filhos e nos afazeres domsticos. Em contrapartida, mes com menor condies socioeconmicas contam com menor nmero de pessoas. Estas mes podem se configurar como grupo de risco e este contexto merece ateno.

A Tabela 8 mostra a relao significativa entre a satisfao das mes com o suporte social recebido e as necessidades das mes em relao ao apoio, servio da comunidade, as financeiras e ao funcionamento da vida familiar e necessidades totais.

 

Tabela 8 Relao entre a satisfao com o suporte recebido das mes, necessidades de apoio, servios da comunidade, financeiras e funcionamento da vida familiar.

Variveis

Suporte social - satisfao com o suporte recebido

Necessidades de apoio

- 0,367*

Necessidades de servios da comunidade

- 0,383*

Necessidades financeiras

 - 0,304+

Necessidades de ajuda no funcionamento da vida familiar

 - 0,394*

Necessidades Familiares Totais

-0,421**

Nota = +p<0,1; *p<0,05.

Fonte: Tese defendida pelo primeiro autor.

 

A Tabela 8 revela que, quanto menor era a satisfao em relao ao suporte recebido, maiores eram as necessidades de apoio, dos servios da comunidade, financeiras, funcionamento da vida familiar e necessidades familiares totais (ou vice-versa). A rede de apoio informal algo positivo para a satisfao com o suporte. Essas redes se caracterizam pelo apoio da famlia nuclear e ampliada, amigos, colegas, vizinhos, assim como grupo de pais, que so redes formais que complementam as informais. Toda essa rede constitui mecanismo importante para o bem estar psicolgico das famlias (Dias, 2014), o que por sua vez, auxilia na diminuio das necessidades familiares.

A Tabela 9 mostra a relao significativa entre a satisfao parental das mes e as necessidades de ajuda no funcionamento da vida familiar.

 

Tabela 9 Relao entre a satisfao parental das mes com as necessidades de funcionamento da vida familiar.

Variveis

Satisfao parental

Necessidades de ajuda no funcionamento da vida familiar

0,330*

Nota = *p<0,05.

Fonte: Tese defendida pelo primeiro autor.

 

A Tabela 9 mostra que, quanto maior era a satisfao parental das mes, maiores as necessidades de ajuda em relao a ao funcionamento da vida familiar (ou vice-versa). Mes mais satisfeitas na parentalidade podem ser mais exigentes em relao s demandas maternas, o que por consequncia, levam a querer melhor funcionamento na vida familiar para favorecer o desenvolvimento dos filhos. 

A Tabela 10 mostra a relao significativa entre os prazeres da parentalidade com as necessidades de apoio e o funcionamento da vida familiar.

 

Tabela 10 Relao entre prazeres da parentalidade s necessidades de apoio e funcionamento da vida familiar.

Variveis

Satisfao Parental - fator 1- Prazeres da parentalidade

Necessidades de apoio

0,320*

Necessidades de ajuda no funcionamento da vida familiar

0,327*

Nota = *p<0,05.

Fonte: Tese defendida pelo primeiro autor.

 

A Tabela 10 aponta que, quanto maior eram os prazeres da parentalidade, maior a importncia da parentalidade, assim como maiores as necessidades de apoio e funcionamento da vida familiar. Mais uma vez, nota-se que as mes que sentem mais prazer ao exercer a sua parentalidade, so mes que exigem mais em relao qualidade do funcionamento familiar, assim como parecem precisar de mais apoio. De fato, quanto maior a qualidade que os pais querem na relao com seus filhos ou mesmo nas relaes familiares, mais demandas tem e, por consequncia, mais apoio precisam para manter essa qualidade.

A Tabela 11 descreve a relao significativa entre os fardos da parentalidade as necessidades de apoio, de explicar aos outros, dos servios da comunidade e do funcionamento da vida familiar.

 

Tabela 11 Relao entre os fardos da parentalidade com as necessidades de apoio, de explicar aos outros, dos servios da comunidade e do funcionamento da vida familiar.

Variveis

Satisfao Parental- fator 2- Fardos da parentalidade

Necessidades de apoio

0,366*

Necessidades de explicar aos outros

0,279+

Necessidades de servios da comunidade

0,285+

Necessidades de ajuda no funcionamento da vida familiar

0,397*

Nota = +p<0,1; *p<0,05.

Fonte: Tese defendida pelo primeiro autor.

 

A Tabela 11 mostra que, quanto maiores eram os fardos da parentalidade, maiores as necessidades de apoio, explicar aos outros, servios da comunidade e no funcionamento da vida familiar. O quesito fardos da parentalidade envolvem as queixas sobre liberdade, aborrecimentos e frustaes da maternidade. Portanto, provavelmente mes com maiores insatisfaes nesses pontos podem apresentar maiores necessidades de suporte, para que consigam lidar com aspectos desafiadores que a maternidade traz consigo.

 

Consideraes finais

 

O presente estudo realizou anlises de diferentes variveis fazendo uso de instrumentos padronizados, segundo opinio de mes de crianas com sndrome de Down e/ou TEA matriculadas na Educao Infantil (G1) e no Ensino Fundamental (G2), da rede pblica de ensino de trs cidades do estado de So Paulo.

Verificou-se a necessidade ainda presente das mes em relao a informao, servios da comunidade e apoio. Alm disso, tais mes necessitam de suporte formal e informal, a fim de auxili-las a conciliar as demandas relacionadas aos servios que as crianas utilizavam, assim como demandas pessoais e familiares. Nota-se a necessidade dos servios de apoio ofertados s crianas, tenham espaos para acolher as mes, assim como as escolas poderiam criar espaos de acolhimento, por meio dos servios de Educao Especial.

A pesquisa apresenta limitaes no que diz respeito ao nmero de participantes. Pesquisas com amostras ampliadas e com maior diversidade da faixa etria das crianas seriam indicadas, a fim de aumentar a generalizao dos resultados.

O estudo trouxe contribuies importantes no campo de famlias de crianas com Sndrome de Down e TEA da Educao Infantil e Ensino Fundamental at o terceiro ano. Alm disso, os resultados influenciam novos questionamentos sobre os servios a esse pblico e possibilidades de pesquisas de intervenes nas residncias, nas escolas e/ou centros de sade e fomentao de programas educativos s famlias e em outros locais com ampliao da populao, podendo se estender a famlias de crianas com outros tipos de deficincias, em situaes de vulnerabilidade social, famlias de outros municpios, assim como possibilidades de comparaes entre crianas matriculadas na rede pblica e privada.

Os resultados alcanados e as discusses realizadas tambm colaboram para que as mes de crianas com Sndrome de Down e TEA sejam ouvidas, assim como para fomentar as reflexes sobre suas necessidades, incentivando para que suas lutas sejam expostas, a fim de influenciar possveis mudanas na realidade brasileira.

 

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